4º Domingo do Advento
Lc 1,26-38
O evangelho da anunciação nos permite falar de duas coisas: sobre as grandezas de Maria (a cheia de graça, a mãe de Deus, a esposa do Espírito Santo) ou sobre a pequenez de Maria (a serva do Senhor, a mulher que se perturba, que tem que crer). Ambas as perspectivas são verdadeiras e devem sempre ser pensadas juntas: aquela que é a serva humilde, mulher simples do povo é também a cheia de graça, a bendita entre as mulheres e a mãe de Deus é também aquela que apesar da perturbação acredita.
Ao contemplarmos Maria, corremos o risco de imaginar que nela tudo foi fácil e transparente. Ela sabia tudo:
- que seria a mãe de Deus,
- que o menino Jesus era o Messias e o Filho de Deus,
- de que ela era a bendita entre as mulheres.
Os evangelhos não falam dessa forma, pelo contrário, mostram-nos Maria
- caminhando na fé
- andando na obscuridade da fé
- nem sempre entendendo os caminhos misteriosos de Deus.
Por isso a real grandeza de Maria, segundo os evangelhos é sua vida de fé, de entrega humilde e confiante aos desígnios de Deus.
Duas coisas na vida de Maria devemos destacar:
- Sua vida de fé que não entende tudo mas confia (Lc 1,38)
- sua fé que cresce mediante a reflexão e a meditação. O evangelho de hoje mostra que “Maria refletia no que poderia significar a saudação”
Como dizem os santos padres: primeiro Maria concebeu em seu coração, depois em seu seio; primeiro concebeu no espírito mediante a fé, depois no corpo.
- O anjo comunica a Maria coisas difíceis de entender:
- ela é cheia de graça;
- sendo virgem vai conceber um menino;
- a força geradora não será um homem, mas o Espírito Santo;
- filho que nascer, Jesus, será por um lado seu filho, mas também Filho do Altíssimo;
- será o Messias cujo Reino não terá fim.
Como crer em tudo isto? Não é alucinação? Poderá Deus fazer tantas maravilhas numa simples mulher do povo e no anonimato da história?
Maria se perturba e tem medo. Mas não duvida. Apenas pergunta como se fará tudo isso. Ela ouve as promessas e aceita as coisas que não se veem. Ela creu, pois para Deus nada é impossível. Na carta aos hebreus temos a seguinte definição: “a fé é a antecipação das coisas que se esperam, a prova das realidades que não se veem” (Hb 11,12).
- Maria acreditou sem dar-se conta de toda a profundidade daquilo que ouvia: certamente teve consciência real de sua maternidade ligada ao Espírito Santo e de a salvação da humanidade está vinculado ao filho que começa a nascer em seu seio. Mas ela teve que caminhar e crescer na fé, no sentido de que a vida vai tornando manifesto aquilo que ainda lhe era obscuro e confuso. Este é o caminho de Maria: é o caminho de quem deve peregrinar na fé.
A fé convive com a perplexidade, mas não pode subsistir com a dúvida. A dúvida deve ser superada. Zacarias não conseguiu superar a dúvida e por isso foi castigado. Maria acreditou e por isso recebeu o elogio de Isabel.
O que significa crer? Olhando o exemplo de Maria podemos dizer três coisas sobre a fé.
- Crer significa confiar apesar da obscuridade; acolher apesar de não ver claro porque é Deus quem está falando; entregar-se e arriscar na esperança de não ser enganado pelo outro. É uma atitude que exige pobreza interior, desapego das próprias seguranças, liberdade para o novo e o inaudito.
- Crer significa aceitar e assumir a verdade do outro. Não basta confiar no outro; é preciso abrir-se aos planos e à verdade do outro ainda que não se veja claro a transparência destes planos. Maria acolheu o conteúdo das palavras do anjo: de ser virgem e mãe, de o Filho ser Deus, Messias e Salvador. Crer é poder dizer fiat: faça-se não conforme a minha compreensão e os meus desejos, mas conforme a vontade de Deus.
- Crer significa obedecer. Obedecer é oferecer-se para realizar os planos do outro; obedecer é ouvir a palavra do outro, acatá-la e cumpri-la. Obedecer não é ser escravo, porque o escravo não é livre. Deus nos quer livres e por isso ele não invade o seio de Maria, mas antes pede licença e oferece sua proposta de salvação. Maria se prontifica a realizar sua missão
Maria é o modelo para todos os que cremos. Assim como o AT começa com Abraão que esperando contra toda esperança acreditou e tornou-se pai de uma multidão de povos, assim o NT começa com Maria. Ela é modelo de fé, ela é a nova Eva.
Por Dom Julio Endi Akamine SAC
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