Verdadeiro Homem e Verdadeiro Deus

Quem é Jesus Cristo? É um profeta? Um homem de Deus? Um sábio que inaugurou uma nova ética? Um fundador de religião?

Tudo isso Jesus é, mas Ele é mais do que um profeta, um fundador de religião ou um mestre! Para o cristão, a resposta a essa pergunta só pode ser: Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Como isso é possível? Isso é possível por causa da encarnação. A encarnação é a ação divina em que um da Trindade assume a natureza humana sem deixar de ser Deus.

A fé católica sempre precisou evitar os desequilíbrios que afirmavam a divindade de Cristo em prejuízo da integridade de sua humanidade ou que, por outro lado, insistiam tanto na humanidade de Jesus que acabavam negando a sua divindade.

Já no tempo do autor do Evangelho de João (final do séc. I) alguns romperam esse equilíbrio negando a real humanidade de Jesus. Os docetas (do grego dokeo = aparecer), por exemplo, defendiam que o corpo de Jesus era só aparência e que, por isso, o Filho de Deus não tinha sofrido na cruz. O quarto Evangelho e as cartas de João respondem a esse desvio reivindicando com veemência a realidade da encarnação da Palavra (Jo 1,1-18).

Mais tarde (nos inícios do séc. IV), foi do lado da divindade que se rompeu o equilíbrio. Ário, presbítero de Alexandria, negou a divindade de Jesus Cristo, considerando-o como a primeira de todas as criaturas, com o poder de exercer um papel de mediador entre Deus e o mundo, mas negando que Jesus fosse Deus em sentido próprio. A partir desta posição desenvolveu-se uma grande corrente – chamada arianismo – e que provocou uma cerrada discussão teológica que culminou no Concílio de Nicéia (325).

Foi nesse Concílio que foi formulada uma parte do Credo conhecido como Niceno-constantinopolitano. Desse Credo usa a expressão “nascido do Pai antes de todos os séculos” e a sua especificação “gerado, não criado” para deixar claro que Jesus não é uma criatura, e sim que é Deus desde sempre e que vive numa relação eterna de descendência do Pai. Para afirmar a divindade de Jesus Cristo com mais precisão, foi ainda cunhada a fórmula “consubstancial ao Pai”. Essa expressão entrou na linguagem da fé depois de um longo processo de transformação semântica dos termos da linguagem filosófica da época (do grego “homo” = igual, o mesmo; “ousia” = natureza).

Com outras expressões mais poéticas reunidas a partir da tradição dos primeiros teólogos, os padres conciliares completaram a definição: “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”.

O Credo de Nicéia foi assim pensado para transmitir fielmente às novas gerações – de língua e cultura grega – a mesma convicção acerca da divindade de Jesus que surge na pregação dos Apóstolos e nos testemunhos do NT. Em nenhum caso se pode defender que Jesus tenha sido divinizado pelo Concílio de Nicéia. As reconstruções romanceadas nesse sentido carecem de qualquer base histórica e documental.

Por que é tão importante confessar que o Verbo de Deus se fez homem? Que consequência tem para o nós o fato de Jesus ser verdadeiro homem e verdadeiro Deus?

A razão é de ordem soteriológica. Em outras palavras: da realidade da encarnação depende a eficácia da nossa salvação: se Jesus não for verdadeiro Deus, a Sua paixão e a Sua morte não têm o poder de nos redimir; e se não for realmente homem, nem sequer a Sua abnegação nos teria salvado, na medida em que o que não é assumido não pode ser salvo (Santo Atanásio). Essa preocupação desde os primeiros tempos exigiu da Igreja que se garantisse o correto equilíbrio na afirmação quer da divindade quer da humanidade de Jesus Cristo.

A confissão de fé se desdobra assim na doxologia: a fé no verdadeiro Deus e verdadeiro homem nos conduz ao louvor agradecido pela maravilha da nossa salvação. Deus não salva como um que conserta uma máquina. Sua ação salvadora não é extrínseca nem permanece no exterior da pessoa humana. Ele salva a partir do mais profundo do ser humano; salva assumindo a natureza humana na sua integridade.

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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