Setembro e a Bíblia: ‘O Presbítero e a Palavra de Deus’

Por: Pe. Isac Isaías Vallle – Paróquia Santo Antônio, Iperó.

No mês de Setembro, a Igreja celebra, com maior ênfase a Palavra de Deus”. A Bíblia (‘Bíblia’: “os Livros Santos”), pela qual Deus se comunica com os homens, “Ad Extra”, na “Economia da Salvação”, ao Criar, ao Redimir-nos em Cristo e ao santificar os homens, pelo seu Espírito. É que celebramos dia 30 São Jerônimo, o “Doutor das Escrituras”. Nasceu na Dalmácia, c.342, e faleceu em Belém, Judéia em 420. Com grande cultura literária e bíblica colocou seus dotes a serviço do Papa S. Damaso; passou os últimos 35 anos de sua vida em Belém, traduzindo a Bíblia dos originais para a língua popular (daí a Vulgata, de “vulgo, povo”), para que as pessoas pudessem ter acesso à Palavra de Deus, numa linguagem acessível ao povo de seu tempo. Tal versão a Vulgata, entrou no uso litúrgico da Igreja Latina, até hoje publicada e estudada. Em setembro queremos dedicar uma reflexão sobre o “Presbítero e a Palavra de Deus”, na Liturgia e na nossa vida.

 

I – FUNÇÃO DA PALAVRA

Deus se revela, no Antigo Testamento, através de sonhos, revelações, visões e locuções interiores; por fim, revela-se através da ‘Palavra’ e dos “homens da Palavra”: seus mensageiros, Patriarcas, Juízes, Profetas, Pais na Fé, até sua revelação última, Escatológica por seu Filho (Hb 1,1-2). Ali encontraremos a perfeição da comunicação do Pai, pela Palavra em seu Filho “Palavra eterna do Pai”, Ele mesmo se dando a conhecer, na plenitude do tempo, Revelador supremo e perfeito do Pai, do seu Reino e de seu desígnio salvífico: nele “Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade” (I Tm 2,4)… É pela Palavra que Deus se deixa conhecer, em sua Unidade divina e como Trindade revelada na história (Economia da Salvação), e comunica sua vida íntima de Amor Trinitário, chamando os homens à comunhão desta intimidade divina.

Esta “palavra” divina nos chegou através dos Livros Sagrados, seja no Antigo Testamento (“Aliança” feita aos grandes Patriarcas e aos seus Profetas), preparando a aliança Eterna (definitiva, que Ele realizaria em seu divino Filho). Já na Antiga Aliança, Ele preparou uma Aliança definitiva: “Quero concluir convosco uma Aliança Eterna” (Is 55,3/cf. Ez 16,60;37,26; Jr 32,40; Baruc 2,35: et alii)… Esta Palavra divina, qual chuva fecundante, “não volta ao Senhor, sem deixar ali seu efeito” (Is 55,10-11). E também Jr 15,16; Sl 118,92/ Tg 1,21/ I Pd 1,23/ Jo 15,3: ‘Estais puros pela palavra que vos anunciei’.

   Eis a função da Palavra: Ser qual semente, qual orvalho fecundante, qual “fogo na boca do profeta” (Jr 5,14), tornando sua boca “qual espada afiada” (Is 49,2), e ser qual “martelo que fende a rocha” (Jr 23,29); e deverá ser anunciada integralmente, sem deturpação, com fidelidade, como alguém que interpreta, pela Palavra, a vontade de Deus junto ao seu povo (Jr 23,28), e junto de sua própria vida. O respeito, o amor e reverência à Palavra (“Dabar”) como Portadora do desígnio de Deus para com seu povo e seus servos nós a aprendemos dos Judeus. É com Eles que aprendemos a ler e meditar essa Palavra, ‘dia e noite’ (Sl 1,2; cf. Sl 111,1: “Feliz quem coloca seu prazer em observar seus mandamentos”. “Vossa palavra, Senhor, me dá vida”: Sl 118,50/ cf Mt 4,4)… Esta palavra – de divina Origem – “permanece Eternamente” (Is 40,8/Lc 21,33): tudo o resto passa, e somos qual erva que seca e é jogada ao fogo (Afirma o Salmista: “É eterna, a Vossa Palavra”: Sl 1118,89).

 

II – DESTINATÁRIOS DA PALAVRA

É bom lembrar que o Deus da fé é um Deus da palavra: Ele quer se comunicar ao homem, por livre vontade; e preparou esta revelação de sua Palavra, através de toda uma Pedagogia divina, sendo esta comunicação de forma crescente, e comunicante. E sempre transmitia pelos seus líderes “Carismáticos”, por Ele escolhidos, para serem mensageiros de seus desígnios, através de sua Palavra… Seus destinatários? O seu povo escolhido, “libertado do Egito, daquela fornalha de ferro, fazendo dele povo de sua predileção e de sua preferência” (Dt 4,20; Dt 5,6: “casa da servidão”; Jr 11,4; Ex 19,5); e por meio de seus profetas, revelava seus mandamentos, suas Leis; eles são mensageiros ungidos para a missão de transmissores fiéis de seus desígnios; se sua palavra não se realizar, é que não veio do Senhor (e sim da mente do profeta: Dt 18,22; o mesmo em Jr 28,9). Deus quer comunicar ao seu povo Eleito, por livre iniciativa e livre vontade a sua Palavra. Esta revelação lenta e seguindo a Pedagogia divina atingirá seu ápice, no Novo Testamento, com Cristo, os Apóstolos e a Igreja… Ali se revela, em plenitude, todo o Antigo Testamento, que é prefiguração, anúncio e preparação para o Novo, resguardando-se, assim, a Unidade intrínseca entre as duas Alianças, uma não subsistindo sem a outra.

Se no Antigo Testamento, Deus nos falou de tantos modos por seus mediadores, agora, “ultimamente”, nos fala de forma definitiva por seu Filho, Palavra eterna do Pai, a nós revelada. Nenhuma ou Palavra ou Revelação se deverá esperar, até o fim dos tempos.

 

III – JESUS E A PALAVRA

Marcos começa seu “Evangelho, dizendo: “Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. Ele foi o primeiro a cristianizar a Palavra “Evangelho”, qual “Boa Nova da Salvação”: e Jesus: “Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo: Fazei penitência e crede no Evangelho” (1,15). Crer no Evangelho ou crer em Cristo, coincide. Ele é o Evangelho da vida, a Boa nova da Salvação. O Deutero-Isaías (40-55) havia preanunciado: “Como são belos, por sobre as montanhas, os pés do Mensageiro que anuncia a Boa Nova e anuncia a libertação” (52,7). Essa profecia se realizava em Jesus, ao começar o anúncio do Evangelho, congregando o povo ao seu redor, ao escolher os 12 Apóstolos, e constituindo sua Igreja, pela adesão à sua Palavra, à sua Pessoa, e ao projeto de salvação, tornando seus seguidores – em linguagem moderna – “Discípulos-Missionários”.

Assim é que nasceu a Igreja: “Pela ação evangelizadora de Jesus e dos 12 Apóstolos” (Paulo VI – Ev. Nuntiandi, 1975, 14-15; “Nasce de Deus, pela Fé em Cristo”: Puebla, 237); ela se configurará como Igreja pronta para a Evangelização com a vinda do Espírito Santo. Então estará preparada para partir para sua missão Universal (Mt 28,18-20). “Anunciai o Reino de Deus, e curai os doentes”, diz Jesus aos Apóstolos na missão que lhes confia; e: “Quem vos ouve, a Mim ouve” (Mt 19,7-8;11,5/Lc 10,16); e: “O que vos digo agora, publicai-o de cima dos telhados” (10,27). (Diríamos: anunciar a boa Nova, pelas parabólicas, pela “Mídia”, usando todos os meios de comunicação disponíveis, para que o Evangelho chegue a tantos corações). “Ai de mim – dirá São Paulo – se não Evangelizar” (I Cor 9,16).

 

IV – O PRESBÍTERO, E A PALAVRA

Na senda do que se expôs, podemos entender a importância, na vida Presbiteral e a responsabilidade na missão do Anúncio do Evangelho… Como podemos anunciar a palavra de Deus, sem estarmos impregnados das palavra divina e seus Valores? Estamos convictos do que anunciamos, em nome e na pessoa de Jesus?  Nós a pegamos com “poder, com o Espírito Santo e com convicção” (ITs 1,5)? A fé nos diz que “Espírito do Pai falará em vós” (Mt 10,20): Eis o que nos faz “ouvintes do que o Espírito quer dizer á Igreja, ao povo, a nós: hoje e amanhã” (Ap 2,7, et alii)… A Palavra divina chegou até nós, “não por vontade humana: mas homens, inspirados pelo Espírito, falaram da parte de Deus” (II Pd 1,20-21); assim, nós devemos falar como alguém enviado pelo Pai, com a autoridade de Cristo, na fé e na unção do Espírito: Sem esta unção, a palavra é vazia e fria! A Unção, que aqueceu o coração de Jr (20,9: “fogo devorador”); o coração dos discípulos de Emaús que “ardia, abrasava seus corações”, quando Jesus “lhe explicava as Escrituras”: (Lc 24,32) é o que devemos suscitar no coração dos fiéis e em nós. Esta Unção faz a diferença, na pregação da palavra. Mas, primeiro deve estar em nós…O que é necessário fazer, para esse objetivo? Eis 4 pontos:

1º: Ler, meditar, orar, memorizar a palavra que temos diante de nós, para o anúncio ao povo. A boca fala “do que transborda do coração” (Mt 12,34). O Presbítero que lê assiduamente a palavra vai memorizando-a, e ilumina o texto que tem diante dos olhos, com “textos paralelos”, enriquecendo-a.

2º: Preparar bem a Liturgia da Palavra, invocando o Esp.Santo, pelo qual esta Palavra foi inspirada e escrita, vendo o “fio condutor’ daquele dia (do domingo, do dia festivo…), que a Igreja nos pede que celebremos…, atualizando esta palavra na vida prática do povo, quanto na vida pessoal.

: Na homilia temos um momento privilegiado de “alimentar o rebanho com o pão da palavra”; por vezes, a vemos como momento de peso, e enfadonho…Pensemos nesse momento precioso, em que o povo veio para receber força da Palavra divina, luz e consolo que necessitam, para enfrentar a semana.

: Levar o povo, na Oração da comunidade, a rezar aquela palavra que, agora, retorna em oração a Deus. A Palavra lida e refletida (homilia) torna-se oração ao Pai, e provocou na comunidade uma resposta de fé (Rm 10,14-17/ ICor 15,11: “Assim pregamos, assim crestes”). Esta “Mesa da Palavra” prepara a “Mesa da Eucaristia”, para que se chegue à plena comunhão com o Senhor, na comunhão de seu corpo e sangue glorificados. O Pão da Palavra prepara a mesa do Pão da Vida! Uma homilia bem preparada e feita com Unção alimenta nossa alma a fortalece e ilumina a fé do povo, ali presente.

 

V – TEXTOS   PROFUNDOS   E   BELOS SOBRE A “PALAVRA DE DEUS

 “As Palavras que vos tenho dito são espírito e vida” (Jo 6,63/ “O Espírito vivifica a Palavra” (II Cor 3,6)!

“Minha palavra e pregação… eram uma demonstração do Espírito e do Poder divino” (I Cor 2,4).

“Tomai… a Espada do Espírito, isto é: a Palavra de Deus…” (Ef 6,17).

“Lembrai-vos de vossos guias que vos pregaram a Palavra de Deus. Considerai como souberam encerrar a carreira; e imitai sua fé” (Hb 13,7/ Nós lembramos os grandes pregadores em nossa vida).

“Recebei com mansidão a Palavra em vós semeada, capaz de salvar as vossas almas” (Tg 1,21).

“A palavra de Deus é semente incorruptível, viva e eterna” (I Pd 1,23).

“A palavra de Deus é viva e eficaz, qual espada de dois gumes…” (Hb 4,12).

É a “Norma suprema da Fé”! Assim, quando oramos falamos com Deus; ao ler sua Palavra: É Ele quem fala conosco, Amém.