Ser amado e amar

Qual é o primeiro de todos os mandamentos? (Mc 12,28-34) Essa pergunta era um assunto que mexia com as pessoas e causava muita discussão no tempo de Jesus. Com efeito, a Lei de Moisés tinha sido inflacionada por muitas prescrições tradicionais, por explicações e reinterpretações. Por isso a pergunta era muito espontânea.

Na realidade, perguntar sobre o primeiro dos mandamentos continua sendo significativo: o que é essencial entre tantos mandamentos, qual é o princípio que dá unidade a todas as prescrições? Temos que obedecer a uma infinidade de leis (a constituição federal, o código civil, penal, fiscal e tributário, as leis de trânsito, de ética profissional, os estatutos de condomínio, etc.), mas qual é a essência de todas elas? Qual é a lei que, cumprida, leva ao cumprimento de todas as outras.

A resposta de Jesus foi simples e, ao mesmo tempo, estupenda: amar a Deus e amar o próximo. São dois mandamentos incindíveis em sua unidade. “O amor a Deus e o amor ao próximo são como duas portas que se abrem simultaneamente: é impossível abrir uma sem abrir a outra, impossível fechar uma sem fechar, ao mesmo tempo, também a outra” (Kierkegaard, Diário II, 201).

Sem esquecer essa unidade, gostaria de concentrar a atenção sobre o amor a Deus.

Esse mandamento suscita dois problemas. O primeiro consiste nisto: se é próprio do amor a liberdade, um amor imposto por um mandamento não pode ser autêntico. Além disso, sequer Deus deseja um amor coagido. Com efeito, “depois que experimentamos o amor das pessoas livres, as reverências dos escravos não têm mais valor” (Charles Péguy).

O segundo problema é: o cumprimento de um mandamento torna o amor frio. Nós estamos fartos de amor frio! A pandemia nos deu uma amostra do que pode ser um amor frio: sem abraço, sem beijo, sem calor, sem proximidade! Será que Deus quer para si um amor frio?

Para superar o primeiro problema é preciso entender que o amor é a causa, e não o efeito do mandamento. Amo e, em consequência, me sinto obrigado a amar. Tal obrigação não me tira a liberdade, exatamente o contrário. Somente quem ama tem a experiência de se obrigar a amar e se sentir inteiramente livre. A obrigação de amar é o sinal visível do amor invisível; é a comprovação do amor que já existe entre amante e amado; é a autenticação concreta do amor espiritual.

Para resolver o segundo problema é preciso prestar atenção ao que Jesus disse: “amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força”. O mandamento não torna o amor frio porque nós só nos sentimos obrigados a amar Deus porque Ele nos amou por primeiro: “amor com amor se paga”. Mais ainda. Porque nos amou por primeiro, Deus nos comunicou, com o seu amor, a felicidade de amá-lo e de corresponder ao seu amor. Deus é sumamente feliz porque ama infinitamente. Ele não quer, não sabe e não pode amar a não ser infinitamente, e nisso Ele é feliz. Ao nos amar por primeiro, Ele derrama em nós o seu amor que é capacidade infinita de se dar e de se doar ao amado. Nós chamamos esse amor comunicado de graça. São Paulo nos fala do dom do Espírito derramado em nosso coração.

Portanto, o mandamento de Jesus nunca tem como resultado um amor frio, pois na experiência do amor de Deus é impossível separar o amor “de” Deus do amor “a” Deus. Essas duas realidades só podem ser experimentadas juntas: quando nos sentimos amados por Deus (amor “de” Deus), esse mesmo amor é simultaneamente um amor “para” Deus. Não podemos separar esses dois amores como não podemos separar o amor a Deus e ao próximo: o amor “de” Deus é já amor “a” Deus. Sentir-se amado por Deus é já amar a Deus.

Concluo convidando o/a leitor/leitora a uma oração simples.

“Senhor, ‘dá-me um sinal de benevolência’ (Sl 86,17); dá-me um sinal de que me queres bem. Faze que experimente o amor filial de Jesus para que meu coração se alargue e eu corra no caminho de teus mandamentos (cf. Sl 119,32); faze que eu te ame acima de todas as coisas e todas as coisas em ti; faze que sempre te procure para te encontrar sempre; que não haja “em meu coração outro Deus fora de ti”. Faze, enfim, que te ame como sou amado”.

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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