São José, Pai na Ternura

  1. Deus ama seu povo com ternura de Pai. No Antigo Testamento o amor de Deus pelo seu povo é comparado ao amor de pai e de mãe pelo filho. São as duas dimensões do mesmo, eterno e terno amor do Pai. Neste deserto (…) vistes o Senhor, vosso Deus, conduzir-vos como um pai carrega seu filho, durante toda a caminhada que fizeste até chegar a este lugar. (Dt 1, 31). Acaso pode uma mulher esquecer seu neném, ou o amor ao filho de suas entranhas? Mesmo que alguma se esqueça, eu de ti jamais me esquecerei. (Is 49,15). Não será Efraim meu filho querido? Pois sempre que falo contra ele, lembro dele com ternura. Por isso, o meu coração se comove por ele, e dele certamente me compadecerei. (Jr 31,20).
  2. Breve reflexão sobre o pai, José, a partir da “Patris Corde”. Motivo a reflexão que segue com esta afirmação ousada de André Doze, interpretando Santa Tereza[1]: Para Maria e para o próprio Jesus, José foi a passagem rumo ao Pai misteriosamente estabelecida por Deus. José foi o mestre de oração da Rainha dos Anjos e do Filho de Deus.

O Papa Francisco, na “Patris Corde”, meditando sobre São José como “Pai na ternura” antecipa o que mais adiante explicitará com outros qualificativos, especialmente com o título de “Pai na Sombra” ou José como “Sombra do Pai”. Com certeza, José terá ouvido ressoar na sinagoga, durante a oração dos Salmos, que o Deus de Israel é um Deus de ternura que é bom para com todos e “a sua ternura repassa todas as suas obras”. (PC 2c; Sl 145, 9).                  

O Espírito Santo plasmou o coração de São José com a ternura do Pai Eterno. O amor intratrinitário do Pai pelo Filho na eternidade de Deus desabrocha no coração humano de Jesus pela mediação do amor de seu pai, José e de sua mãe, Maria.

O Pai do céu precisou de uma mulher – Maria – para dar seu Filho ao mundo e de um homem – José, esposo de Maria – para com ela ser a presença “sacramental” de seu amor na maturação da humanidade de Jesus. Por isso José e Maria deveriam se amar, um ao outro, com ternura quase infinita para serem, como se fossem um só coração, “sacramento” do amor eterno do Pai para com o Filho, nascido em tudo semelhante a nós, com exceção do pecado. O ato de fé-entrega de José se funde com o ato de fé de Maria quando da anunciação do anjo. Amou-a, a partir de então, como alguém que se ajoelha diante do sacrário para adorar Jesus na Eucaristia.

Para ser pai na TERNURA, José precisou se tornar esposo na ternura. Já a amava, mas Deus lhe concedeu a graça de um amor terno e imaculado para com Maria a partir do momento em que ele creu que ela, sua esposa, estava grávida por obra do Espírito santo. Nenhum esposo terá amado sua esposa como São José amou Maria.

Precioso é para a criança o amor que sua mãe e seu pai lhe testemunham. Mais necessário, talvez ainda mais vital, é o amor que seu pai e sua mãe têm um pelo outro: o amor deles, de esposos. Este amor do qual o filho nasceu, é também o pão cotidiano sem o qual ele nunca alcançará a sua plena realização.[2]

Foi na atmosfera desse amor esponsal que Jesus chegou ao pleno desenvolvimento, à plena consciência-experiência de ser o Filho Amado do Pai. São Lucas por duas vezes se refere ao crescimento do menino. A primeira vez, logo depois da apresentação no templo: “Depois de cumprirem tudo conforme a Lei do Senhor, eles voltaram para Nazaré, sua cidade, na Galileia. O menino foi crescendo, ficando forte e cheio de sabedoria. A graça de Deus estava com ele” (Lc 2,39-40).

A segunda, quando do retorno depois do encontro de Jesus no Templo entre os doutores: “Jesus desceu, então, com seus pais para Nazaré e era obediente a eles. Sua mãe guardava todas essas coisas em seu coração. E Jesus ia crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,51-52).

O menino crescia alimentado pela ternura que jorrava do amor de seus pais, e, na medida em que crescia, revelava-lhes sempre mais seu mistério, obediente a eles com a ternura própria do Filho em quem o Pai coloca todo o seu bem-querer (Mt 3,16-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22).

A humanidade de Jesus não desabrochou sob o estímulo do ambiente do Templo com seus sacerdotes e doutores; foi em Nazaré, na atmosfera simples de oração, silêncio e trabalho, em ambiente regado de ternura, que Jesus chegou à plenitude de sua maturação humana.

Dia após dia, José via Jesus crescer “em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens”. Como o Senhor fez com Israel, assim ele ensinou Jesus a andar, segurando-O pela mão: era para Ele como o pai que levanta o filho contra o seu rosto, inclinava-se para Ele a fim de Lhe dar de comer. Jesus viu a ternura de Deus em José: “Como um pai se compadece dos filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem” (PC 2ab; Lc 2, 52; Os 11, 3-4; Sl 103, 13).

  1. JOSÉ, modelo de esposo e de pai. Como Maria, José recebeu o anúncio, em sonho, do anjo, garantindo-lhe que a gravidez de Maria era obra do Espírito. José creu imediatamente e, tomado de imensa alegria, acolheu Maria em sua casa. Tal como Maria, entregou-se ao desígnio de Deus, consagrando sua vida ao menino e à sua santíssima esposa. Cuidou dela como quem cuida de um sacrário, com profundo respeito, divina ternura e veneração. José, homem justo, amou, como ninguém o terá feito, sua esposa e o filho que lhe fora dado pelo Pai do céu.

Assumiu no tempo, ser pai do Filho de Deus feito um de nós. Não houve e nem jamais haverá alguém, tão pai como José. Todo pai só é pai de verdade quando com a esposa assume, em verdadeiro amor, o filho gerado. E isto São José o fez de forma tão intensa que o menino Jesus aprendeu que seu Deus, o Senhor, devia ser assim como José a quem ele, pequenino, balbuciando, chamava de abba, papai. Ser pai na terra é ser sinal do Pai do céu. Dele procede toda paternidade (Ef 3,14). A beleza da paternidade humana é reflexo da Paternidade de Deus, Pai e Criador. O pai bom oferece ao filho a via de acesso ao Pai do céu. Foi Jesus quem, por primeiro, chamou o Deus de Israel de Pai, Abba, Papai. Era assim que a criança judia se dirigia a seu pai. Mas nenhum judeu se atreveria a assim se dirigir a seu Senhor, seu Deus. Foi Jesus quem inaugurou essa linguagem de ternura no trato com Deus. E foi de José e de Maria que recebeu os cuidados e o afeto que lhe permitiram reconhecer em Deus o Pai de infinito e terno amor. Bem-aventurados os pais que passam para os filhos tal experiência de amor que permita a eles alegrarem-se quando ouvirem: “Deus é Pai”. E que São José, patrono-pai da Igreja, interceda para que em nossa Igreja todas as relações sejam tecidas pela ternura de Deus!

Juiz de Fora, 22 de junho de 2021

Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues

Arcebispo Emérito de Sorocaba

[1] DOZE, André. José, o pai do Filho de Deus, p. 41; edição.2011.

[2] CAFFAREL, Henri. Sacramento de missão, p. 55.

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