São José – Pai na Sombra

O ano santo de São José avança concedendo à Igreja uma oportunidade única de mergulhar no mistério de Deus na vida deste servo fiel e prudente, a quem o Senhor confiou a guarda de sua Casa. Papa Francisco apresenta uma das facetas de São José, neste ano santo a ele dedicado, com a expressão: Pai na Sombra. São José foi pai para Jesus, na sombra do Pai Celeste. Um grande presente, pois esta imagem – viver sob a sombra das asas de Deus – é uma identidade do povo de Israel, experimentada profundamente na sua espiritualidade. Pedimos ao Espírito Santo que nos ajude a mergulhar um pouco em um mistério de vida que se oculta na perfeita humildade. E deixemos a Escritura falar.

A tradição bíblica por detrás dessa imagem é muito rica e profunda. Moisés experimenta a Aliança que Deus firma com seu povo, dessa maneira: é Deus quem fala, não sabeis como vos tirei da terra do Egito e vos trouxe a mim, e como vos carreguei sobre asas de águia (Ex 19,4). O salmista canta a bem-aventurança daquele que dorme sob a sombra do Senhor, recebendo dEle proteção e refúgio (Sl 90,1). Jesus chora diante de Jerusalém e recorda o sonho de Deus para seu povo, isto é, recolhê-los e colocá-los todos debaixo de suas asas, mas eles não quiseram (Lc 13,34).

Em São José, cada uma destas palavras da Escritura se cumpre. Sua vocação de verdadeiro pai, no tempo e na história humana, evoca a grandeza da paternidade de Deus no meio do seu povo resgatado e salvo para formar sua família dentre todos os povos criados. Seu chamado, coloca São José, em profunda comunhão com Deus e seus desígnios, lhe guarnecendo da proteção divina para que possa chegar ao termo dos desígnios divinos. Finalmente, ainda, São José realiza o sonho divino, nele mesmo, para todo o Seu povo – não há nele rebeldia, nem revolta, traição ou infidelidade. Ele dorme, e Deus repousa sobre ele e sobre seus sonhos. Ele desperta e trabalha, e Deus opera nele e em suas mãos. É o humilde servo do Senhor a quem Deus confiou sua casa, sua família.

Papa Francisco aproveita este caminho de vocação na vida de São José para falar sobre tornar-se pai no mundo atual e frente aos desafios atuais. E seria limitado demais não recolhermos aqui a tradição bíblica do pai misericordioso do filho pródigo (Lc 15,11ss). Uma figura misteriosa que revela como Deus é, mas também expressa o significado de ser pai na sombra. Tornar-se pai na sombra de Deus, significa, portanto, permanecer imutável em si mesmo, uma torre de virtude e fortaleza, que carrega a memória da vida e das obras de Deus; é ser um baú de tesouros pronto para ser aberto e revelar coisas antigas e novas. Mas tornar-se pai também significa abrir-se ao sim, e muitas vezes, ao não dos filhos, não os impedir de crescer, de avançar para águas mais profundas, mesmo que neste mundo tal decisão, implique afastamento e pecado. Tornar-se pai, significa ainda esperar o tempo de amadurecimento dos filhos e filhas, para abrir-lhes o coração, e alimentar-lhes com abundância no perdão, na consolação e na alegria do dom de si. Engana-se quem acha que gerar a vida é suficiente. Quem pensa, que colaborar com o ato magnífico da fecundação é o ápice da participação masculina no ato criador. Tornar-se pai é consumir-se, dia-a-dia, na humildade de dar-se, sem medida. Deus é modelo dessa doação sem medida. E São José, sua sombra na Casa de Nazaré, o é para Jesus e para Maria.

São José também é pai na sombra na Igreja de seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. E nós o estamos redescobrindo neste ano santo. Ele tem muito a ensinar às famílias, e a todas e cada uma das categorias de fiéis em cada comunidade cristã espalhada pelo mundo inteiro – a sacerdotes, clérigos, religiosos e religiosas. Até o feminino pode aprender com São José, como uma boa esposa que cresce à sombra da árvore frondosa do esposo, que lhe oferece proteção e abrigo generoso.

Retomando a tradição bíblica. Moisés torna-se todo de Deus, um sinete em suas mãos, e exerce sua paternidade em Israel em meio a muitas rejeições, mas esta é a sua vocação, e Deus experimenta estas mesmas rejeições em comunhão com o coração mosaico. O salmista experimenta sua pertença a Deus e a força da sua promessa de proteção, está seguro em Deus, mas não está imune de perseguições e tentativas de morte, mesmo da parte daqueles que são convidados à mesma graça, e Deus experimenta nele o veneno incutido pelo mal no coração de seu povo. Jesus chora, e o Pai Celeste com ele, diante da dureza de coração do povo de Jerusalém. O quanto Deus Pai experimentou da vida humana e da humanidade de seu Filho através de São José, somente o reconheceremos, se assim no-lo for revelado na eternidade, mas o inegável é que São José não foi apenas um justo que provou o sabor de Deus em sua vida, mas aquele por meio de quem o Pai Celeste saboreou a ternura da criação da nova família humana, e viu que era bom.

Padre Rodolfo Gasparini Morbiolo. Em 22 de junho de 2021.

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