Os Desigrejados

A Igreja, como tema de reflexão e mais ainda como objeto de escolha pessoal, sofre com uma crescente desafeição. Tal desafeição, porém, se enfrentada com seriedade, ajuda a refletir e falar sobre a Igreja de maneira mais pertinente e significativa.

Do ponto de vista sociológico, a relação dos cristãos com a Igreja tem se tornado difícil e exige da reflexão da fé uma resposta. Atualmente a Igreja está lançada no mercado da sociedade pluralista: a religião passou a ser considerada um bem de consumo de livre escolha, sujeita à lei da oferta e da procura como qualquer outro produto.

Nesse contexto de mercado, muitos fiéis não vivem mais seu afastamento da Igreja Católica como um abandono público de oposição, mas como uma desvinculação tranquila. A desvinculação institucional da Igreja não se dá mais de forma dramática, mas é o resultado de um distanciamento discreto e quase espontâneo.

Também o modo como os cristãos aderem à Igreja sofreu mutações profundas. Muitos, que se consideram católicos “praticantes”, nutrem formas bastante seletivas e parciais de fazer parte da Igreja. Na verdade, vários católicos se identificam não tanto com “a Igreja”, mas com determinadas comunidades, com movimentos particulares e, até mesmo, com alguns padres. A adesão parcial e seletiva garante de um lado uma sintonia muito estreita de linha de pensamento e de ação e, de outro, a exclusão daqueles com os quais não se identificam.

Diversificaram-se também as posições frente à Igreja. Podemos identificar, ao lado de uma virulenta oposição laicista da Igreja, uma aceitação acrítica e tradicionalista dela. Nesse contexto, cresce igualmente a exigência de que a adesão à Igreja seja fruto de uma opção livre e responsável e não tanto de uma tradição recebida ou, pior ainda, de manipulação da consciência.

São cada vez mais numerosos os que afirmam ter fé, mas desistiram da Igreja e defendem agora o slogan como “Jesus sim, Igreja não!”. Esses “cristãos” veem a vinculação a uma Igreja como algo completamente inútil. Os seguidores do programa “Jesus sim, Igreja não” normalmente não desejam se situar expressamente contra a Igreja, mas apenas sem a Igreja. Atualmente alguns definem esse fenômeno como o dos “desigrejados”. O que está na base de tal posição é o postulado de que Jesus pode e deve ser buscado fora da Igreja.

Tal postulado, porém, é insustentável. A tradição do que é propriamente “Jesus” não pode ser pensada sem o fator “Igreja”, porque esse “Jesus”, como conteúdo da tradição de Jesus só foi conservado de maneira permanente e fiel pela Igreja, devido ao interesse eclesial por “Jesus”.

Assim um “Jesus” sem ou fora da Igreja nunca existiu e, em última instância, nunca poderá existir, porque com a perda da “Igreja” também se perde a única instância que é capaz de testemunhar quem é realmente Jesus. Quem, portanto, não ouve a linguagem do testemunho eclesial do Novo Testamento, também não ouve Jesus. Para chegar a ter comunhão pessoal com Jesus não há outro caminho a não ser aceitar o testemunho daqueles que, desde o princípio viram e conviveram com o Senhor, ou seja, os apóstolos. Por transmissão viva na sucessão ininterrupta, o testemunho de Jesus chegou até nós. De fato, a fé apostólica é uma vida que só pode ser transmitida por meios vivos e não por meros meios mecânicos ou virtuais.

A contraposição entre Cristo e a Igreja não esvazia só a Igreja. Esvazia sobretudo o Cristo. Sem a Igreja, as pessoas acabam por construir um “Jesus” à imagem e semelhança dos homens e dos seus interesses. Com efeito, o acesso a Jesus, o encontro pessoal com Ele e a fé nEle só são possíveis através da Igreja fundada pelo próprio Cristo.

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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