Os cristãos são homofóbicos?

A Igreja rejeita a ideologia de gênero com a mesma clareza e decisão com que repudia o preconceito contra grupos sociais, a discriminação e a exclusão de pessoas. Uma coisa é ensinar e defender o rompimento entre o sexo biológico e a identidade sexual; outra é a atitude misericordiosa em relação às pessoas com tendências homossexuais.

Os adeptos da ideologia do gênero defendem, contra todas as evidências científicas e da realidade, que basta um simples ato de vontade para definir a “orientação de gênero” ou a “preferência sexual”. Estão convencidos de que a pessoa pode, sem problemas e sem consequências negativas para si e para os outros, ignorar a realidade do seu sexo biológico para construir sua própria identidade. No fim das contas, a ideologia apregoa: “eu não sou o corpo que tenho e com o qual nasci”; “o meu corpo não diz a verdade sobre mim mesmo”. Em outras palavras, segundo essa ideologia, a identidade sexual feminina e masculina pouco teria a ver com a realidade de nosso corpo.

Desconectar o sexo do gênero e afirmar a orientação de gênero sem levar em conta a evidência do próprio corpo é uma posição fundada numa ideologia e não na realidade. A Igreja rejeita a ideologia do gênero porque esta subestima a realidade biológica do ser humano e porque é uma teoria reducionista que supervaloriza a construção sociocultural da identidade sexual, opondo-a a natureza. Em vez de colocar em contradição, uma sadia educação deve levar a pessoa a viver em harmonia com o seu corpo, a acolher o sexo biológico como uma dádiva da natureza humana e a se desenvolver com uma identidade bem definida em vista das relações humanas.

Segundo a ideologia de gênero, os homens e as mulheres não têm atração pelo sexo oposto por natureza mas por causa de condicionamentos da sociedade. Por isso o desejo sexual pode ser orientado para qualquer sexo, o que justificaria o casamento de pessoas do mesmo sexo. Em vez da atração sexual pelo sexo oposto, a ideologia de gênero apregoa uma sexualidade perversa polimorfa. Basta pesquisar a literatura disponível para se dar conta desse projeto de desconstrução da família. Cito um autor de manuais utilizados nas Universidades norte-americanas para ilustrar o projeto da ideologia do gênero.

“A supressão da família biológica fará desaparecer a obrigação de proceder à repressão sexual. A homossexualidade masculina, o lesbianismo e as relações sexuais fora do casamento não serão consideradas apenas de maneira liberal mas também como opções alternativas, fora do alcance da regulamentação do Estado. Em vez disso, até mesmo as categorias de homossexualidade e de heterossexualidade serão abandonadas: a própria instituição das ‘relações sexuais’, em que o homem e a mulher exercem um papel bem determinado, desaparecerá. A humanidade poderá enfim alcançar a sua sexualidade natural perversa e polimorfa” (Alison Jagger “Political Philosophies of Women’s Liberation”, Feminism and Philosophy, 1977, 13; grifos meus).

A discussão vai continuar, e é importante que os cristãos se engajem conscientemente no debate público como cidadãos. Como cristãos não queremos impor nossas convicções aos outros, mas também não renunciamos ao nosso direito de participar democraticamente da educação e dos rumos da sociedade brasileira.

Não é justo tratar os cristãos como cidadão de segunda classe. Infelizmente é próprio de uma ideologia a falta de diálogo com a ciência, com a realidade e com a sociedade. Uma ideologia é um sistema de pensamento fechado em uma lógica de ferro que não permite a possibilidade de revisar sua própria posição. Muitas vezes os cristãos são chamados de “dogmáticos” (no sentido pejorativo da palavra). Mas se prestarmos atenção ao modo como os adeptos da ideologia de gênero argumentam e agem perceberemos como eles são “dogmáticos” (no pior sentido da palavra).

 

Por Dom Julio Endi Akamine, SAC

 

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