Os Anjos

Por Dom Julio Endi Akamine, SAC

 

Existem os anjos? Há duas atitudes extremas e opostas que a fé católica procura evitar: de um lado a cética desconfiança em relação à existência real dos anjos como se eles fossem mera invenção adequada a uma psicologia imatura, e de outro a fantasia exotérica que pretende conhecer uma infinidade de coisas sobre os anjos (seus nomes, a hora em que agem, o modo de invocá-los, etc.). Em outras palavras: devem ser evitados tanto o ceticismo racionalista quanto o exoterismo exagerado e irracional.

Faz parte da nossa fé crer na existência dos anjos. A Bíblia dá testemunho sóbrio dessas criaturas celestes que se colocam como mensageiros entre Deus e os homens, sobretudo nos Evangelhos nos quais os anjos são descritos com um papel bem definido. A Escritura e a Tradição nos falam somente o que precisamos saber sobre eles.

Os anjos são criaturas espirituais, dotadas de inteligência e vontade e superiores às criaturas visíveis. A missão dos anjos é a de ser servidores e mensageiros de Deus e fiéis executores de suas ordens. Eles estão em estreita relação com o mistério de Cristo em dois sentidos. Primeiramente, como todas as criaturas, os anjos foram criados por meio de e para Cristo. Em segundo lugar os anjos são mensageiros dos desígnios de salvação de Cristo.

Os anjos são criaturas espirituais que dependem de Deus. Elas subsistem na plena identidade de sua condição puramente espiritual. Nesse sentido, eles não têm corpo e, por isso, não estão ligados às funções do corpo: eles não conhecem através dos sentidos do corpo (como acontece conosco), não tem instintos, não são masculinos nem femininos. A individualidade deles não procede da corporeidade.

A perfeição dos anjos depende da proximidade ao Criador. Quanto mais próximos de Deus, tanto mais perfeitos. Não se trata, porém, de uma perfeição que coincida com a perfeição divina, uma vez que são criaturas e receberam a existência de Deus. O ser deles é recebido e, por isso, eles não são eternos.

Os anjos são pessoas, mas diferente das pessoas humanas, não são pessoas compostas de alma e corpo.

A existência dos seres espirituais, que a Sagrada Escritura chama de “anjos”, era negada nos tempos de Cristo pelos saduceus (cf. At 23,8). Negaram-na também os materialistas e racionalistas de todos os tempos, mas “para nos livrar da fé na existência dos anjos, seria necessário corrigir radicalmente a própria Sagrada Escritura e, com ela, toda a história da salvação” (A. Winklhofer, Die Welt der Engel, Ettal 1961, p. 144, nota 2; in Mysterium Salutis, II, 2, p.726).

Os anjos não são criaturas de primeiro plano na realidade da revelação e, mesmo assim, pertencem plenamente a ela, tanto que, em alguns momentos, os vemos cumprir tarefas fundamentais em nome do próprio Deus.

A Providência abraça também o mundo dos espíritos puros que, mais ainda do que os homens, são seres racionais e livres. Na Sagrada Escritura encontramos preciosas indicações a esse respeito.

Reconhecemos sobretudo que a Providência, como amorosa Sabedoria de Deus, se manifestou na criação dos seres puramente espirituais para que melhor se manifestasse a semelhança de Deus neles, os quais superam em muito tudo o que foi criado no mundo visível, inclusive o homem que também é incancelável imagem de Deus. Deus que é Espírito absolutamente perfeito se manifesta sobretudo nos seres espirituais que, pela sua natureza espiritual, estão muito mais próximos dEle do que as criaturas materiais. Eles constituem quase o “ambiente” mais vizinho do Criador. A Sagrada Escritura oferece um testemunho bastante explícito dessa proximidade dos anjos a Deus. A Bíblia fala deles com linguagem figurada: eles são como o “trono” de Deus, as suas “fileiras”, o seu “céu”. O testemunho das Escrituras inspirou a poesia e a arte dos séculos cristãos que nos apresentam os anjos como a “corte de Deus”.

A nossa adoração não está dirigida aos Anjos, mas a Deus. Os Anjos são servidores de Deus que, na sua bondade infinita, foram colocados ao nosso serviço. Assim os anjos nos ajudam a ter um senso mais profundo da santidade e da majestade de Deus e, ao mesmo tempo, um senso de grande confiança, porque tais seres terríveis e excelsos são nossos servidores e amigos.

Veja mais em: Biografia / Agenda do ArcebispoArtigosComentário ao Evangelho do dia / Youtube / Redes Sociais