O Trabalho do Amor

Joaquim e Madalena eram um casal que vivia na favela. Partilhavam uma vida de pobreza e de dificuldades, mas tinham um ao outro. Demonstravam nas palavras e nos gestos respeito e um grande amor. Sempre iam a missa, e vê-los rezar juntos me ajudava a rezar melhor. Um dia a dona Madalena faleceu. Celebrei o funeral e rezei com o seu Joaquim. Muitos meses depois, tive a oportunidade de conversar com o seu Joaquim. Perguntei-lhe como estava enfrentando o luto. Ele me respondeu: “Sofro muito a falta dela. Mas, ao menos, tenho um consolo”. “Que consolo?”, perguntei. “Consola-me o fato de ela ter ido antes que eu. Se tivesse sido eu o primeiro a falecer, ela estaria sofrendo o que eu sofro. Deus não permitiu que ela sofresse pela minha morte”.

Os nomes das pessoas são fictícios, mas o fato é real. Ele atesta a necessidade de cultivar o amor ao longo da vida. O poeta afirmou: “o amor é eterno, enquanto dura”. Acrescente-se a isso: para durar é necessário o trabalho.

Os apaixonados são essencialmente passivos, curtem e vivem a paixão, que, porém, não se sustenta. Ela acaba ou se cansa de si mesma; às vezes, até se transforma em ódio irracional. Se os casados querem permanecer apaixonados precisam trabalhar ativamente para manter o amor e fazê-lo crescer. O amor é uma flor frágil que precisa ser cuidada.

No Cântico dos Cânticos, a noiva canta:

Em meu leito, durante a noite, procurei o amado de minha alma. procurei-o, e não o encontrei. Vou, pois, levantar-me e percorrer a cidade, pelas ruas e pelas praças, procurando ao amado de minha alma. Procurei-o e não o encontrei (3,1-2).

A vida é uma procura pelo amado da alma. Para amar Deus (e amar as pessoas) é preciso esforço cotidiano e perseverante. Trabalho e amor são uma só coisa: para que o trabalho seja realizador, deve ser feito com amor, e para que o amor viva, deve ser um trabalho cotidiano. O amor cristão não é um sentimento, é trabalho que o amor acarreta.

A vida matrimonial é amor: ama trabalhar e trabalha para amar.

Ao longo do Cântico dos Cânticos vemos a mulher procurando o amado da alma. Ela sonha com ele até ter pesadelos. Várias vezes vemos essa mulher ferida sofrendo. Ela exprime o desejo de que suas companheiras não sofram a mesma dor que ela experimenta desde que foi ferida. De fato, o amor são chamas de fogo, são labaredas divinas. A mulher sofre porque o amado é inacessível e não se deixa encontrar. Por duas vezes ouvimos a mulher se lamentando: “Procurei o amado, e não o encontrei” (1.2). A única coisa que a mulher ferida pode fazer é suspirar. Ao longo de todo o poema do Cântico dos Cânticos somos induzidos a perguntar: esse amor vai, enfim, se revelar? Deixará ser encontrado?

É exatamente isso que ocorre, quase sem aviso: a mulher ferida, depois de ter sido abordada pelos guardas que faziam a ronda noturna, relata: “encontrei, afinal, o amado de minha alma. Segurei-o e não o soltarei”.

O amor conduziu a mulher ferida a se levantar de noite para sair a procura do amado. Ela não o encontrou, mas não desistiu. Perseverou na busca até encontrar o amado da alma.

A vida cristã é isso: “Segurei o amado e não o soltarei”. Ser batizado, ser casado, ser ordenado significa não largar mais o amado tão longamente procurado. Uma vez encontrado, nós o agarramos e não o largamos mais.

Na realidade, a recíproca é ainda mais verdadeira: Deus nos encontrou, nos agarrou e nunca mais vai nos soltar. O batismo introduziu essa lei imutável em minha vida: tudo o que farei a partir do banho batismal será confirmação ou traição desse amor que não me largará mais. Cada dia, cada decisão, cada ação, pensamento, intenção minha reafirma e reacende esse amor, ou, desgraçadamente, o trai e o rejeita.

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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