O Nascimento

Muita imaginação já foi aplicada para descrever a “vida para além da morte” e o céu. Para não ser ilusória e enganadora, a imaginação precisa estar ancorada na realidade ou a ela nos conduzir. Como é possível essa adesão a uma realidade que está para além da nossa experiência terrena? Nesse caso, o cristão recorre à Revelação bíblica, mais exatamente à experiência do mistério cristão.

Segundo o mistério cristão o céu é a vida eterna. Os textos joaninos que ligam a “vida” a Jesus Cristo são particularmente significativos (cf. Jo 3,36; 5,24; 6,47.53-54; 11,25; 17,3; 1Jo 3,14). No NT, o estado da vida eterna é também associado à visão de Deus. Jesus nos abre o caminho do céu porque Ele mesmo, enquanto âmbito no qual entramos em comunhão com Deus, é o céu. Não há vida no Paraíso a não ser como associação à Sua glorificação.

Como interpretação autêntica dos textos bíblicos que falam do céu é significativa a constituição Benedictus Deus. Ela afirma que “a divina essência se mostra a eles (os salvos) claramente, abertamente, imediatamente nua”. É necessário entender bem que essa visão beatífica não dilui o mistério de Deus. Ver Deus não faz com que Deus seja compreendido e colocado dentro dos limites humanos. Deus nunca deixa de ser mistério absoluto. Exatamente o contrário: a visão imediata de Deus faz ver a Sua incompreensibilidade, na qual o ser humano imerge sempre mais.

A teologia falou do céu quase exclusivamente nos termos da visão de Deus. Atualmente está mais consciente de que, no NT e na Tradição, aparecem outros elementos. Um deles é o da comunhão de vida e de amor com Deus uno e trino. A visão não é meramente intelectual, mas abraça todos os aspectos e todas as dimensões da vida humana. Nesse sentido, vale a pena citar um texto de Santo Tomás de Aquino.

Na vida eterna a primeira coisa é que o homem se une a Deus. Portanto o próprio Deus é o prêmio e o fim de todos os esforços… Essa união consiste na perfeita visão: “No momento vemos como em um espelho, em enigma; mas então veremos face a face” (1Cor 13,12). Consiste também no sublime louvor… e igualmente na perfeita satisfação do desejo… na feliz comunhão de todos os beatos; e essa comunhão será muito aprazível porque cada um partilhará todos os bens com todos os outros. Portanto cada um amará o outro como a si mesmo, e por isso se comprazerá do bem do outro como próprio (Opusc. Theol., 2).

Chama a atenção o elemento da comunhão dos santos. O céu não consiste no ideal de uma felicidade privada e individualista. Isso contradiz a própria concepção cristã de céu. A felicidade autêntica e verdadeira sempre implica a comunhão com os outros.

Outro ponto fundamental que jamais deve ser esquecido é que a vida eterna é estar com Jesus e com os que foram salvos por Ele. Cristo é como o espaço vital dos salvos que estão “em Deus”. O céu é assim plena comunhão com Cristo e com os irmãos, pois para os salvos, viver em Cristo significa viver no Seu corpo ressuscitado o qual abraça também toda a humanidade salva.

Quem vai para o céu não perde a sua identidade pessoal. Acontece exatamente o contrario! Na união com Deus, a identidade pessoal alcança a sua mais plena realização. Assim a relação com Deus e a consistência própria do ser criatural crescem simultaneamente; nunca se opõe uma a outra. Se o destino do homem é essa união com Deus em Cristo, quem a alcança se torna plenamente ele mesmo.

Nessa perspectiva cristã do céu, a morte deixa de ser fim-término para se tornar o fim-finalidade da vida terrena e o início da vida eterna. Nesse sentido, a morte é o “dies natalis”, o dia do nosso nascimento para Deus.

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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