O Castigo Divino

Todos conhecem o provérbio: “quem semeia ventos, colhe tempestades.

Há uma relação evidente entre causa e efeito, mas isso nem sempre é tão claro na prática pessoal. Muitos, por exemplo, temem a velhice como a idade das doenças, da decadência física e dos achaques. O que poucos reconhecem é que uma velhice decadente é fruto de como vivemos a nossa juventude e a idade adulta; se as vivermos com sofreguidão e desregramento, colheremos no futuro os efeitos dos abusos de longo prazo. Assim uma velhice sofrida depende do que semeamos na juventude e na madureza e não da sorte nem do acaso.

Assim é com todas as ações que realizamos no presente: a curto ou a longo prazo terão seus efeitos intrínsecos, pois quem semeia ventos, colhe tempestades.

Talvez nem todos saibam que esse provérbio tem origem bíblica (cf. Os 8,7) e que o seu contexto é político e social (cf. Os 8-10). O profeta Oséias anuncia o castigo inevitável que se abaterá contra o povo não como uma sanção extrínseca de Deus, mas como o efeito das opções políticas e sociais do presente. Ele, portanto, aponta as razões históricas de um futuro desastroso e ensina que Deus não é autoritário nem caprichoso.

Oséias tinha denunciado o povo por ter violado a aliança e rejeitado o bem (Os 8,3). Desde o princípio, a história do Reino, inaugurado por Jeroboão, foi uma ininterrupta sucessão de assassinatos e de injustiças. Reis foram escolhidos por razões politiqueiras e se transformaram em marionetes de poderes humanos: “Eles constituíram reis sem minha vontade; constituíram príncipes sem meu conhecimento” (Os 8,4).

Além disso, havia o bezerro de ouro de Samaria que fora encomendado por Jeroboão e que permanecia como uma manifestação visível não só da idolatria, mas também da malícia interior que tornava impossível as mudanças sociais: “Sua prata e seu ouro serviram para fazer ídolos e para sua perdição” (Os 8,4).

É nesse sentido que o povo semeia no presente a própria colheita de ruína política e social: ele deposita a sua confiança em ídolos que não passam de vento. Com efeito, a homenagem aos ídolos é o culto ao que é oco, inútil e vazio, que, porém, tem consequências gravíssimas: “Semeiam ventos, colherão tempestades; se não há espiga, o grão não dará farinha; e mesmo que dê, estranhos a comerão” (Os 8,7).

Além da sementeira da idolatria, Oséias critica duramente a erva daninha da dicotomia entre o culto e a vida concreta. Os cultos podem ser multiplicados e cada vez mais belos e solenes, mas eles só servem para ocultar a apostasia e a desobediência. A Deus, porém, ninguém engana; Ele quer o coração, a interioridade, o eu comprometido da pessoa. Ele sabe quando prestamos um culto com coração dividido: “Seu coração é falso; agora eles pagarão; o Senhor quebrará seus altares, devastará seus altares” (Os 10,2).

O profeta Oséias adverte: Atenção! O reino se encaminha rapidamente para sua ruína que não será um castigo divino extrínseco, mas a consequência trágica da política do presente. A impotência de Samaria e do seu rei é evidente: flutuam “como um galho sobre a superfície das águas” (10,7). Quando Deus abandonar o seu povo, a fecundidade desaparecerá das suas vidas. A desolação será tão terrível que as pessoas pedirão para a própria natureza vir cobrir a sua vergonha: “dirão às montanhas: Cobri-nos! E às colinas: Caí sobre nós!” (Os 10,8)

Como se pode notar, o provérbio bíblico é uma advertência muito atual para nós. Os ídolos modernos do dinheiro, do poder e do prazer não nos salvarão! Eles são apenas vento e estão na raiz das injustiças sociais, da violência e da guerra. Além disso, não podemos tolerar uma religião feita somente de exterioridade. Um culto solene sem conversão do coração ao Deus vivo e verdadeiro não somente nos é inútil quanto muito prejudicial para o futuro de nossas civilizações.

Prestemos atenção à política que semeamos no presente. Semeamos uma educação integral e humanista? Ou ela se tornou apenas mais um produto comercial acessível somente aos que têm dinheiro para comprá-la? A política educacional do nosso país é uma forma de promover maior igualdade social ou reforça as gritantes desigualdades sociais? Semeamos a saúde como um bem e um direito para todos? Ou ela se tornou um bem privado para os privilegiados? A paz social é um bem indivisível de todos? Ou ela é vista apenas como o resultado da segurança privada? Semeamos o armamento da população ou procuramos pôr em prática a política de “transformar as espadas em relhas de arado” (Is 2,4; Jl 410)?  O sucesso nas eleições depende da verdade e dos programas políticos? Ou está baseado no ódio, nas calúnias e na polarização?

Nós colheremos o que semearmos hoje! Ouçamos mais uma vez o profeta Oséias: “Semeai para vós conforme a justiça, colhei conforme o amor. Abri para vós um campo novo! (Os 10, 12)

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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