“Não desprezeis nenhum desses pequeninos” (Missa a favor da Vida)

“Este trecho do Evangelho de São Mateus é parte do calendário litúrgico da Igreja, bastante apropriado para a celebração, mesmo não tendo sido especialmente escolhido para esta data. Não fomos nós quem fez esta escolha. Esta leitura é prescrita para o mundo todo, todas as Igrejas ouvem o mesmo Evangelho. Jesus anuncia o Reino, esta é a mensagem central de sua pregação e o fim de todos os seus esforços. O Reino é a realidade que se revela em todos os seus milagres. Se há algo que mobiliza as forças de Jesus, se tem algo que O faz perder o sono é o Reino de Deus. Esta é a sua missão, por isso podemos imaginar como deve ter doído os ouvidos de Jesus quando ele escutou dos seus discípulos: quem é o maior no Reino dos Céus? Se eu fosse Jesus acho que ficaria muito cansado, não adiantou nada todo o esforço que fiz. Os discípulos disputam entre si os lugares mais importantes no Reino a ser instaurado por Jesus, ambicionam o primeiro lugar, querem para si toda a estima alheia.

Para responder esta pergunta e para revelar aos discípulos uma nova mentalidade, uma nova realidade, Jesus coloca uma criança no meio deles. Este não é um mero detalhe! “Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio dos discípulos e disse: “Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus”. Jesus revela que para ser grande é preciso se converter – a criança é apontada não como modelo de inocência, mas de humildade. A criança não tem pretensões, sabe que é criança e aceita sua pequenez, sua impotência diante da vida. Acolhe a necessidade que tem de seus pais para poder subsistir e sobreviver. As crianças são modelos de humildade porque não se consideram menos do que são. Mas também não se consideram mais do que são. A humildade está na verdade!

O gesto e a palavra de Jesus nos convidam a passar para a realidade, da família humana para a família de Deus, o Reino. O que é o homem perante Deus? Para responder a isto é preciso se reconhecer criança, se converter. E é exatamente essa a nossa alegria e dignidade: nos reconhecer como crianças diante do Pai, nós somos filhos. No versículo seguinte Ele diz: “E quem recebe em meu nome uma criança como esta é a mim que recebe”. É o próprio Jesus que se identifica com aquela criança. Lembremo-nos, Jesus pôs uma criança no meio – será que nós vamos perder essa sensibilidade de nos identificar com as crianças? Perder a capacidade de nos identificar com quem é frágil? O dia em que perdemos isto deixaremos de ser gente, quem dirá cristão católico. Perder a capacidade de ver Jesus em uma criança, ainda que pequena com poucos centímetros, mesmo a criança que ainda não nasceu, perderemos nossa humanidade junto com isso.

Reconhecer-se como filhos de Deus tem como consequência reconhecer que também os outros são filhos de Deus. É por isso que Jesus adverte: “Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus”. A doutrina bíblica dos anjos diz o seguinte: o anjo tem 3 funções – louvar e glorificar Deus, serem mensageiros de Deus para nós, e proteger e guardar as pessoas e as nações. Deus indicou as anjos mais excelsos, mais próximos Dele para cuidar das crianças.

Celebramos esta eucaristia para rezar pela nossa nação. Está diante de nós uma decisão importante que vai dar rumo ao nosso futuro e para a sociedade que a gente quer construir. Recentemente foi realizada uma Audiência Pública promovida pelo Supremo Tribunal Federal sobre a descriminalização do aborto no Brasil. Quem acompanhou com atenção esta audiência pode não só ouvir manifestações favoráveis e contrárias, mas percebeu também que o pedido de descriminalizar na prática significa legalizar. Temos que dizer com toda clareza.

Será que legalizar o aborto é a solução? Para responder é preciso esquecer por um momento o que acabei de explicar no Evangelho. Se trata de acrescentar outros argumentos que podem ser compartilhados também com quem não tem fé, com cientistas sociais, juristas e políticos, por exemplo. Devemos nos lembrar que as leis são criadas para defender algum valor. Se a lei pune quem rouba é porque tem um direito e um valor que deve ser preservado, direito de propriedade. Se temos uma faixa-viva em nossa cidade é para cuidar do pedestre. A lei não é para limitar, no fundo é para preservar e defender um valor importante. A lei que diz que é crime o aborto provocado está a serviço de um valor altíssimo que é a vida humana, a vida do nascituro. Se lhe negamos esse direito tiramos ao mesmo tempo todos os outros direitos. Que sociedade é essa que considera normal atentar contra a vida humana já no seio de sua mãe? Que sociedade vamos construir se decretamos por lei que até 12 semanas a vida humana não é vida humana?

A vida que ainda não nasceu é vida humana desde a sua concepção e isso diz a Ciência, mas diz também a realidade. A vida que está no ventre da mãe é humana, não se torna humana depois de 12 semanas. A gestação de uma mulher não é algo indefinido – me perdoem esta imagem grosseira, mas nenhuma mulher fica grávida de animais, ela fica grávida de vida humana. Gente que é gente desde o início! Nenhuma lei dá àquele ser vivo a dignidade humana, a lei só pode reconhecer: a vida humana é anterior a qualquer legislação e se um legislador esquece isso nós vamos contra a própria realidade. Ser gente não é uma concessão da lei, é um fato da natureza que precede toda legislação.

Não nos esqueçamos, também celebramos São Maximiliano Kolbe que morreu no campo de concentração de Auschwitz – o nazismo era uma ideologia de uma raça superior produziu frutos terríveis para nossa sociedade. Será que é isso que desejamos para nós?

O aborto é crime? Não podemos matar uma vida humana, a finalidade da criminalização – entendam bem criminalizar não é primeiramente penalizar a mulher ou a mãe – mas sim a proteção do filho e dela também. Não penalizar é diferente de descriminalizar. O juiz pode decidir não punir quem realizou um aborto, mas bem diferente é a descriminalização. O dano, o trauma e o sofrimento causados por este ato pode ser por si só uma punição que vai acompanhar essa mulher.

Argumenta-se também que qualificar o aborto voluntário como crime limita os direitos fundamentais da mulher. Infelizmente o que está na base desse argumento é uma visão destorcida da realidade. Será que não se vê que filho não é o opressor da mãe?  A falta de condições econômicas para criar um filho deve ser tratada com seriedade, a mulher que se torna mãe tem direito ao apoio da sociedade para encaminhar bem o filho na vida. Por isso também hoje queremos render graças a Deus por tantas organizações da Igreja que ajudam as mães que desejam abortar e acolhem essas crianças depois do nascimento. A Igreja sempre teve gestos concretos de defesa da vida, e de acolhida. A lei que condena o aborto deve ter também como consequência a proteção da gestante mediante políticas públicas eficazes para a vida de ambos.

Voltando ao Evangelho vamos lembrar: ‘não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois Eu vos digo que seus anjos veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus”. Jesus nos adverte para não desprezar nenhum desses pequeninos, ainda que tenham centímetros de tamanho, pequeninos cujo coração bate muito baixinho e que ainda não viram a luz deste mundo. Os seus anjos tem contato direto com o Pai. Rezemos para que não nos venha esta vergonha diante de Deus. Que a face do Pai não seja manchada por uma mortandade que só vai aumentar com a legalização do aborto. Mobilizemo-nos para que não nos seja imposta uma lei tão injusta para com os mais frágeis, os vulneráveis que são os nascituros.

Dom Julio Endi Akamine, SAC

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