MARIA UNE OU DIVIDE OS CRISTÃOS?

O Papa Francisco convocou os católicos para rezar o Rosário neste mês de maio, o mês dedicado a Maria, Mãe de Deus. Estamos também próximos da festa de Pentecostes e, de 24 a 31 de maio, realiza-se a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos”. Nesse sentido, penso que seja oportuno refletir sobre a devoção a Nossa Senhora no contexto do diálogo ecumênico.

Muitas vezes, a devoção a Nossa Senhora é apresentada como o que difere os católicos dos “evangélicos”. Por isso, tendo em vista a unidade dos cristãos, não seria melhor falar menos de Maria e mais de Jesus?

Se consultarmos o Catecismo da Igreja Católica (963-975), veremos que ele não deixa dúvidas: a catequese mariana consiste em falar da Virgem Maria em relação ao mistério de Cristo e ao do Espírito e em relação ao mistério da Igreja. Em outras palavras, em vez de ocultar a devoção mariana, a Igreja Católica recomenda que se fale mais de Maria na sua relação com Cristo, com o Espírito e com a Igreja. Por isso não tem sentido a alternativa: ou Jesus ou Maria. Com efeito, o papel e a função de Maria só podem ser corretamente compreendidos no contexto da história da salvação e falar dela significa falar de Jesus Cristo.

Deus iniciou o diálogo com a humanidade ao criar o homem e a mulher e ao elevá-los a uma familiaridade com Deus, que infelizmente foi perdida com o pecado da desobediência dos nossos primeiros pais. Tal pecado não interrompeu o diálogo de Deus com a humanidade. Ele estabeleceu a Aliança com Noé, Abraão e Moisés, prometeu uma nova aliança, eterna e inscrita no coração. Em continuidade com a realização desse desígnio divino, Maria se apresenta, na história da salvação, como realização perfeita da obediência da fé e o modelo da resposta de fé que Deus espera dos seres humanos.

Em Maria, age o Pai que a abençoou com todas as bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nela age o Filho que a escolheu como colaboradora na obra da redenção. Age nela o Espírito Santo que faz dela nova criatura. Por isso, “Maria, a Mãe de Deus toda santa, sempre Virgem, é a obra-prima da missão do Filho e do Espírito na plenitude do tempo” (721).

Por outro lado, Maria não esgota tudo o que o Filho e o Espírito realizam, mas ela é o sinal mais transparente, o ícone mais bem-acabado da obra salvadora e santificadora de Cristo e do Espírito.

Maria não é um mero personagem do passado, sem relação com os cristãos do presente e com os homens de nosso tempo. Ela continua agindo e colaborando na obra da salvação e está unida à Igreja que peregrina neste mundo. Maria pertence à Igreja e, como tal, desempenha nela a função materna na ordem da graça. E a Igreja, por sua vez, corresponde à presença e atuação de Maria na história da salvação mediante um culto especial que traz o nome de devoção exatamente para distinguir da adoração que só pode ser tributada a Deus.

Neste mês mariano, o nosso olhar se volta para Maria, a fim de contemplar nela o que é a Igreja em seu mistério, em sua peregrinação da fé, e o que será na pátria, ao término de sua caminhada, onde a espera, na glória da Santíssima e indivisível Trindade, na comunhão de todos os santos, aquela que a Igreja venera, como a Mãe de seu Senhor e como sua própria Mãe. É com este olhar voltado para Maria, que os católicos se empenham na semana de oração pela unidade dos cristãos: vê em Maria a perfeita correspondência à vontade de Jesus: “que todos sejam um”.

   
Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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