Maria, Igreja e Jesus

A devoção mariana dos católicos ameaça a centralidade da fé em Cristo? O amor devotado a Maria subtrai algo do amor que se deve a Jesus Cristo? É justo identificar pura e simplesmente a devoção mariana à idolatria?

Essas perguntas sempre retornam e é bom aproveitar-se delas para um aprofundamento da própria devoção marina, uma vez que, de algum modo, ela forma a identidade do povo brasileiro. Sem esquecer o respeito por outras confissões cristãs, o diálogo pressupõe que a identidade católica não seja escondida nem ocultada.

A devoção mariana está fundada nas relações de Maria com Cristo e com a Igreja. No fim das contas, essas duas relações constituem uma só realidade que leva o nome de “devoção”.

As relações de Maria com a Igreja decorrem da união singular de Maria com o Filho na vida terrena e celeste. “O papel de Maria para com a Igreja é inseparável de sua união com Cristo, decorrendo diretamente dessa união” (CatIgCat 964). A relação de Maria com o Filho tem algumas características que qualificam e explicam a relação materna de Maria com a Igreja.

Primeiramente a relação é de união espiritual mediante a fé. Ela é a nova Eva que, desde a concepção virginal, se tornou, com a sua obediência de fé, a “mãe de todos os viventes”. Essa maternidade se manifesta ao pé da cruz.

A união de Maria com Cristo é atuante e operativa. Tendo colaborado na salvação, que é obra de regeneração, Maria pode ser declarada como mãe dos que são salvos. Foi o próprio Filho Crucificado que nos deu Maria por nossa Mãe (cf. Jo 19,26). A verdadeira identidade de Maria na história da salvação é a de ser mãe dos discípulos de Cristo, representados pelo discípulo amado. Como ele, nós devemos acolher Maria na comunhão de fé e de amor.

A união de Maria com o Filho é permanente, uma vez que se estende desde o momento da concepção virginal de Cristo até a sua morte. Tal união, porém, se prolonga pela eternidade com a assunção de Maria, que é “singular participação na ressurreição de seu Filho e antecipação da ressurreição dos outros cristãos” (CatIgCat 966).

A santidade de Maria é uma santidade exemplar e concerne à Igreja. Trata-se de uma santidade totalmente em benefício da Igreja. De fato, na comunhão dos santos, essa santidade privilegiada de Maria é comunicada a todo o corpo da Igreja, o que faz subsistir a união dos cristãos com a “Toda Santa” para além da morte.

Maria colabora com fé e com disponibilidade consciente na obra da redenção. Ora tal obra consiste na regeneração (novo nascimento) na ordem da graça, por isso Maria colabora pessoalmente nessa regeneração na ordem da graça. Nisso consiste a maternidade de Maria: na cooperação com Cristo no Espírito no renascimento dos filhos de Deus.

A maternidade na ordem da graça é um dom suscitado por Deus como participação da única mediação de Cristo. Nesse sentido, a fé católica afirma com clareza que a mediação da graça é única: Cristo é o único mediador.

Por que então a devoção mariana chega a considerar Maria como “mediadora da graça”?

É importante eliminar a impressão de que a ação de Maria na ordem da graça constitua uma mediação paralela, alternativa e, pior ainda, concorrente à única mediação de Cristo. Nesse sentido, a fé católica indica com exatidão: “a missão materna de Maria em favor dos homens de modo algum obscurece nem diminui a mediação única de Cristo, ao contrário, mostra a sua eficácia” (CatIgCat 970). Em outras palavras, a função mediadora de Maria consiste em ser uma mediação secundária, participada e subordinada à única mediação de Cristo. Reconhecer essa mediação de Maria significa reconhecer que a mediação de Cristo não ficou sem efeito em Maria. A única Mediação de Cristo não nega a mediação secundária, participada e subordinada de Maria; pelo contrário, a sustenta e a suscita.

 
Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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