Era uma vez…

Já notou como contar estórias é um recurso importante na educação e no ensino? Na vida cristã, contar histórias é mais do que um recurso pedagógico: é uma ação profundamente coerente com a natureza da Palavra de Deus.

Contamos histórias, porque ela é o lugar da Revelação cristã e porque a nossa salvação está ligada a uma sucessão de acontecimentos que se desenrolam segundo um desígnio divino de amor, nos quais Deus age e nos quais o ser humano responde. Na história da salvação, Deus e o homem entabulam um diálogo dramático de liberdades: Deus se doa, vindo ao encontro do ser humano, e este é elevado à condição de parceiro da aliança. Contar histórias é, portanto, o que a Igreja tem feito sempre, em todos os lugares, para todas as pessoas. Trata-se da história de Deus com os seus filhos e filhas. Não se deve esquecer que a própria Bíblia é o resultado, guiado pelo Espírito Santo, da “contação” de histórias. Antes de ser consignada nos meios mecânicos, a Palavra de Deus aconteceu como história, foi acolhida pelos discípulos de Jesus, foi escrita pelo Espírito no coração deles e, por fim, foi contada de geração em geração.

Contamos história porque Deus intervém na história da humanidade para, através dela, manifestar a sua vontade e para nela realizar os seus desígnios de salvação. As histórias adquirem assim uma profundidade que a fé nos faz intuir. Elas são portadoras das intenções de Deus, revelam-se unidas dramaticamente por um desígnio de salvação que lhes dá sentido. Muitas outras admiráveis tradições religiosas, porque não conhecem o Deus da história, não têm a possibilidade encontrar o sentido da história e de interpretar o seu sentido.

A ação de Deus na história guarda uma coerência interna admirável. De Abraão até Jesus Cristo pode-se traçar uma linha, descobrir um desígnio de amor que é o plano divino da salvação. Nenhum acontecimento histórico se compreende a não ser como parte desse plano divino de salvação que se desenrola no nosso tempo. Contar histórias significa seguir esse fio de ouro que nos guia em meio aos caminhos obscuros e ao vale de lágrimas desta vida. Significa fazer a experiência de que temos o nosso Bom Pastor caminhando à nossa frente até o banquete que Ele nos preparou.

Contamos histórias porque experimentamos a todo momento que Deus não só agiu no passado, mas continua agindo no presente como continuará no futuro. Contar histórias nos dá a possibilidade de cairmos na conta de que Deus está presente, imprevisível em suas intervenções como em seus efeitos. Contar histórias nos leva a estar atentos e vigilantes à vinda de Deus no aqui e no agora; mostra que o presente inicia o futuro da esperança cristã que foi prometida no passado.

Transmitir a fé cristã não é transmissão de algumas verdades, mas sobretudo de acontecimentos históricos nos quais se manifesta a ação salvífica de Deus. Os símbolos da fé nos mostram essa realidade, pois seus artigos não são verdades abstratas, mas fatos históricos (nasceu, padeceu, morreu, foi sepultado, ressuscitou).

Contar histórias é importante para o “fazer a história”. Não entendemos a história como o simples fluir dos acontecimentos e o seu registro material. Ela não é somente constituída pelos eventos que merecem registro.

A história é evento, mas também palavra, porque o próprio evento histórico só se constitui como tal quando se encontra o seu significado salvífico. Contar histórias faz o acontecimento revelar o seu sentido salvador para nós e para os outros. Assim ao fato objetivo se une a revelação interior da sua inteligência dada por uma palavra inspirada por Deus.

Ao contar a história da viagem da humanidade com Deus, tomamos parte desta maravilhosa aventura que Deus iniciou com Abraão, que atingiu a sua plenitude com Jesus Cristo e que terminará um dia Nele. Eis o mistério da fé!

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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