Entendo Creio na Igreja

Há poucos dias encontrei uma frase num ponto de ônibus: “A Igreja não salva, mas um salvo deseja estar na Igreja para cultuar Aquele que o salvou”. É a Igreja unicamente a comunidade dos que foram salvos, sem qualquer papel ativo na salvação dos mesmos? A relação do fiel com a Igreja é estrita e unicamente posterior à relação do fiel com o Salvador? A Igreja pode mediar a salvação em Cristo?

A Igreja é tanto sujeito como objeto de fé. Ela é sujeito de fé, porque ela confessa: “eu creio”, “nós cremos”.

Por outro lado, a Igreja é também objeto de fé, porque além do “eu creio”, o cristão confessa: “creio na Igreja”. É legítimo e necessário que a Igreja seja analisada pelas ciências humanas (sociologia, psicologia, história etc.), seja criticada como qualquer instituição social, seja reconhecida como um agente da sociedade civil. Para o fiel, no entanto, a Igreja só revela seu âmago e sua essência a partir da pré-compreensão da fé. Para o cristão, a Igreja não é mero objeto de estudo, mas primeiramente objeto da fé; não é só entidade a ser analisada, mas realidade e mistério a ser crido.

Dizer que a Igreja é objeto de fé, porém, não a coloca absolutamente no mesmo plano de Deus, que é o fundamento verdadeiro e próprio da fé. O fiel não crê na Igreja da mesma maneira que crê em Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

A tradição latina, a partir do séc. V, chegou até mesmo a expressar essa distinção na própria profissão de fé. Para constatar essa distinção é preciso recorrer ao texto latino da profissão de fé. Nela, o “creio em Deus, Pai…, em Jesus Cristo…, no Espírito Santo” (credo in Deum Patrem…, in Jesum Christum…, in Spiritum Sanctum) se distingue clara e explicitamente do “eu creio a Igreja” (credo Ecclesiam). Essa diferença de palavras (a ausência da preposição in = em) parece pequena, mas é muito significativa para afirmar que a fé é essencialmente uma conversão ao Deus vivo e verdadeiro, e que ela, enquanto resposta à interpelação divina, é a aceitação do convite de Deus de estreitar uma relação pessoal com Ele, uma autoentrega confiante a Ele e um reconhecer nEle o próprio fundamento.

Em Santo Agostinho encontramos um exemplo de como o uso da preposição e a regência verbal mudam o significado das afirmações de fé. Ele, por exemplo, distinguiu entre o: 1. credere Deum (crer Deus): crer na existência de Deus, 2. credere Deo (crer a Deus): crer na autoridade de Deus, 3. credere in Deum: crer em Deus.

Dizendo que “crê a Igreja”, o fiel declara que adere a ela na medida em que a reconhece como um dos efeitos da ação salvadora de Deus no mundo e, por isso, instrumento que Deus usa para convidar a humanidade a entrar na sua comunhão.

Rigorosamente falando, o cristão crê a Igreja, mas não faz dela objeto de fé, uma vez que somente Deus pode ser digno de nossa confiança absoluta e incondicional. Quem recita a profissão de fé, portanto, crê que a Igreja faz parte dos dons salvíficos do Deus vivo e da esperança escatológica do cristão, mas funda a própria existência somente sobre a rocha da fidelidade do Deus Trino.

Levando a sério o terceiro artigo do Símbolo, o cristão evita, de um lado, qualquer idolatria da Igreja e, de outro, confessa que a grandeza e a beleza da Igreja consistem exatamente no fato de ser: 1) criatura e obra do Espírito Santo, 2) comunhão com Jesus Cristo, uma vez que este Espírito é o de Jesus, 3) o Povo de Deus reunido de todos os povos, uma vez que Deus mesmo age em Jesus.

Não por menos, o Símbolo da fé relaciona a Igreja com a “comunhão dos santos”, a “remissão dos pecados” e a “vida eterna”. “Crer a Igreja” é, portanto, crer que o Espírito Santo forma, vivifica e une a Igreja, que o fiel recebe o precioso dom da fé, aderindo à Igreja, que o cristão participa, através dela, da comunhão dos santos e é nela santificado, que a remissão dos pecados, nela realizada definitivamente por Cristo, alcança cada cristão, que pode, por tudo isso, ter a firme esperança na ressurreição da carne e na vida eterna.

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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