Eleição: Privilégio ou Serviço?

Uma eleição sempre implica a escolha de algumas pessoas e não de todas. Pela sua própria natureza, a eleição sempre particulariza, reduz e concentra. Consiste no movimento contrário da dispersão e da universalização. Quando elegemos um presidente, um governador ou um prefeito sempre escolhemos entre diversos candidatos ao cargo. A mesma lógica se repete nas eleições em outros âmbitos: síndico, coordenador, representante, conselheiro, etc.

A revelação cristã segue a dinâmica da eleição: dentre todos os povos da terra, Deus escolheu um para ser o seu. Dentre os vários discípulos, Jesus escolheu doze homens para os constituir em colégio apostólico. Dentre todos os homens, há um único pelo qual podemos alcançar a salvação (At 4,12; 1Tm 2,5). Esse é o grande escândalo do particularismo da salvação.

Para alguns pensadores é inaceitável que Deus tenha se revelado a um povo particular: aos judeus, antes que aos egípcios, gregos ou romanos. Eles não recusam a ideia da revelação, mas rejeitam a ideia de uma revelação a um povo privilegiado. Mais ainda, a encarnação de Deus, única e definitiva num povo, parece-lhes inaceitável.

Inicialmente devemos responder que se os fatos testemunham uma revelação a favor de um povo em vez de outro, devemos registrá-los para sermos fiéis à história. Não compete a nós decretar a priori o que Deus deve fazer ou não na economia da salvação.

Se a revelação chega até nós pela e na história como um acontecimento, segue-se que esse evento está submetido às condições da história: acontece aqui e não ali, agora e não depois ou antes, neste grupo e não naquele. Com a encarnação, se particulariza ainda mais a revelação: não apenas acontece em um povo concreto, mas também nesta pessoa que viveu na Palestina e morreu no tempo de Pilatos. Que o acontecimento, porém, tenha acontecido em Israel e não no Egito, isso permanece um mistério, que não se explica nem pelo gênio religioso de Israel nem por sua fidelidade às condições da Aliança.

Acrescente-se, porém, que a eleição é feita em vista de um serviço. A revelação é confiada a Israel, mas por ele deve chegar a todos os seres humanos. Ela vem por Jesus, mas o Cristo, por sua morte e ressurreição, torna-se o centro de uma comunidade que rompe as fronteiras do tempo e do espaço. A revelação se realiza em Israel, tendo em vista sua extensão às nações; concentra-se em Jesus Cristo, tendo em vista, porém, sua universalização.

O fundamento teológico da particularidade da revelação está na liberdade do amor de Deus. Ele pode escolher alguns particulares – pessoas, povo, lugar, tempo, etc. – para se revelar de modo privilegiado. Com efeito, qualquer escolha na história tem de ser particular, já que está ligada às coordenadas de tempo e espaço. Todos os intermediários da revelação de Deus foram particulares, inclusive Jesus. Falavam uma língua, tinham uma cultura, viviam determinado momento, habitavam certa região. As suas mensagens tinham sempre a “particularidade” desses condicionamentos pessoais, históricos, culturais.

A dimensão e o valor universal advêm do caráter de serviço. Os particulares são escolhidos em vista do bem e da salvação da humanidade. Sua mensagem, portanto, é universal. Assim, a revelação de Deus, em qualquer momento da história, teve alcance universal. Os intermediários frequentemente não tinham percepção de tal, mas o caráter universal vinha da intenção salvífica universal de Deus. Os mensageiros não existiam para eles ou para grupos culturais limitados, mas estavam em função da totalidade da humanidade (2Tm 2,4).

Toda essa reflexão é bastante abstrata. Ela, porém, nos ajuda a cair na conta de que cristão algum o é para si mesmo. O privilégio e a alegria de ser filho de Deus conduz para a missão que nada mais é do que uma partilha do Evangelho com os outros. “Os cristãos têm o dever de o anunciar, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível” (EG).

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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