Deus é Mãe?

A atualidade e a importância do tema da relação homem-mulher dispensam apresentação e justificativa: no mundo atual, as relações homem-mulher passam por transformações importantes. Nem sempre evidente, porém, é a necessidade de um processo “terapêutico” trinitário que consiste em afirmar não a divisão e a separação, mas o encontro, a acolhida e a doação recíproca.

Que intuições emergem da consideração da relação de Deus Trindade com a mulher que podem iluminar e orientar a relação homem-mulher? Como o conhecimento e a experiência da comunhão divina podem ajudar a superar o machismo, a discriminação do sexo oposto e a divisão dos sexos? Como as diferenças entre homem e mulher podem levar ao encontro e a reciprocidade? A fé cristã e a doutrina católica despertam perguntas fundamentais que devemos responder não só teoricamente, mas sobretudo com a vida.

A primeira e fundamental iluminação que a fé cristã oferece para a relação homem e mulher provém do livro do Gênesis (1,27): “E Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou”. Homem e mulher não são complementares, mas duas plenitudes. Plenitude que consiste em ser, cada um, imagem e semelhança de Deus não na separação e sim no encontro. À luz da distinção e da unidade de Deus Trindade, a distinção dos sexos perde o seu caráter de divisão. A humanidade, como masculino e feminino, foi criada à imagem e semelhança de Deus Trindade. Assim, o masculino e o feminino encontram sua última razão de ser no mistério da comunhão trinitária. Embora a Trindade transcenda a distinção entre os sexos, podemos falar em forma masculina e feminina das divinas pessoas.

A questão da relação homem-mulher suscita, portanto, outra: podemos chamar Deus de Mãe? Deus é homem ou mulher?

Mesmo que não seja essa a questão a ser respondida pelo Catecismo da Igreja Católica, nele encontramos um texto esclarecedor:

Ao designar a Deus com o nome de “Pai”, a linguagem da fé indica principalmente dois aspectos: que Deus é origem primeira de tudo e autoridade (origem) transcendente, e que ao mesmo tempo é bondade e solicitude de amor para todos os seus filhos. Esta ternura paterna de Deus pode também ser expressa pela imagem da maternidade, que indica mais a imanência de Deus, a intimidade entre Deus e a sua criatura. A linguagem da fé inspira-se assim na experiência humana dos pais (genitores), que são de certo modo os primeiros representantes de Deus para os homens. Mas esta experiência humana ensina também que os pais humanos são falíveis e que podem desfigurar o rosto da paternidade e da maternidade. Convém então lembrar que Deus transcende a distinção humana dos sexos. Ele não é nem homem nem mulher, é Deus. Transcende também à paternidade e à maternidade humanas, embora seja a sua origem e medida: ninguém é pai como Deus o é (239).

É errada a tendência de projetar o que é próprio do ser humano – a sua distinção em sexos opostos – em Deus. A Paternidade maternal de Deus supera e transcende a dualidade sexual. Não podemos assim aplicar a Deus a dualidade sexual, que é própria da natureza humana.

Na linguagem da fé é preciso também levar em conta que o gênero gramatical nem sempre corresponde ao sexo real. Um exemplo: Igreja tem gênero gramatical feminino, mas a realidade não é nem masculina nem feminina. Assim Deus, de gênero gramatical masculino, não é masculino nem feminino, mas compreende as perfeições do homem e da mulher.

Partindo da dignidade do homem e da mulher como imagem de Deus, uma sadia educação deve levar a pessoa a viver em harmonia com o seu corpo, a acolher o sexo biológico como uma dádiva da natureza humana e a se desenvolver com uma identidade bem definida em vista das relações humanas.

Deus não é sexuado nem tem a seu lado uma deusa como acreditam algumas religiões antigas. A Bíblia sempre rejeitou tais crenças como idolátricas e preservou a transcendência de Deus. Mas uma vez que Deus é o Criador, a fecundidade do casal humano é “imagem” viva e sinal visível do ato criador. O casal que ama e gera a vida é a verdadeira “imagem viva” que manifesta Deus criador e salvador. A capacidade que o casal humano tem de gerar é o caminho por onde se desenrola a história da salvação.

Se o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus, isso não permite afirmar que Deus seja à imagem do ser humano! Deus não é homem nem mulher. Homem e mulher, porém, provêm de Deus: as qualidades e as perfeições que caracterizam tanto o homem quanto a mulher têm origem de Deus. Uma vez que o masculino e o feminino são, em sua distinção e igual dignidade, participação no ser perfeitíssimo de Deus, não há nada de estranho, portanto, que, na Bíblia, Deus apareça com traços masculinos e femininos, de mãe, de esposo, de pai. Na Virgem Maria temos um ícone dessa “maternidade” e, portanto, desses traços femininos de Deus.

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

Veja mais em: Biografia / Agenda do Arcebispo / Palavra do Pastor / Youtube / Redes Sociais

Compartilhe:
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp

Siga nossas Redes Sociais:

CONTATO

Av. Dr. Eugênio Salerno, 100
Vila Santa Terezinha, Sorocaba – SP
CEP: 18035-430
Telefone: (15) 3221-6880