Contemplar o Presépio: A Genealogia de Jesus

Para contemplar o presépio como um sacramental não bastam pensamentos afetuosos e românticos. Diante do presépio é preciso ter a Bíblia na mão e no coração. A contemplação do presépio é, às vezes, muito exigente, pois precisamos penetrar na inteligência da Escritura. Esse é o caso das genealogias de Jesus (cf. Mt 1,1-16.18-23; Lc 3,23-37), duas passagens que estão ligadas ao evento do natal e, por isso, ao presépio.

Causa-nos um pouco de aborrecimento ouvir essa longa série de nomes dos antepassados de Jesus. Por que ler as genealogias que parecem não ter importância nem conteúdo teológico para o nosso nutrimento espiritual? Mas será que é assim mesmo? As genealogias não têm importância nem conteúdo espiritual?

Pense um pouco na sua própria história. De quem você veio? A resposta é evidente: de um pai e de uma mãe: são duas pessoas. Os seus pais vieram dos seus avós: são mais quatro pessoas. Continuemos fazendo as contas: os bisavôs são 8; os trisavôs, 16; os tetravôs, 32; os pentavôs, 64; os hexavôs, 128; os heptavôs, 256; os octavôs, 512; os eneavôs, 1.024 e os decavôs, 2.048. Até aqui são 11 gerações, com 4.094 ancestrais. Isto tudo em, aproximadamente, 300 anos antes de seu nascimento! Pare por um instante e pense! Quem foram eles? Quantas lutas eles tiveram que travar? Por quanta fome passaram? A quantas guerras sobreviveram? Quanto amor, força, alegria e coragem eles legaram a você? Quanto deles está dentro de você hoje? Tudo o que eles viveram e sofreram, de alguma forma, está inscrito na sua carne hoje.

Se você pegar cada nome das genealogias e pesquisar na Bíblia a história pessoal dos personagens, cairá na conta de que a “carne” de Jesus carrega todo esse peso da história da salvação, feita de fé, amor, heroísmo e também de muito pecado. As genealogias de Jesus nos fazem tomar consciência do significado da confissão de fé: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. Elas são para nós uma síntese maravilhosa de toda a milenar história da salvação, uma história feita de pecado e maldade, mas que foi conduzida por Deus até chegar a Maria, a José e a Jesus. Deus preparou todas as gerações em vista do nascimento de Jesus. Para que recebêssemos Jesus Cristo, foi necessária essa sucessão de gerações e, principalmente, a ação de Deus.

Nesse sentido chamo a atenção para um detalhe que não é de pouca importância. Na genealogia de Mateus a cada um dos ancestrais de Jesus se aplica duas vezes o verbo “gerar”: uma vez como “filho”, e outra como “pai”. Tomemos como exemplo Isaac: Abraão gerou Isaac, e Isaac gerou Jacó. Esse esquema se repete até chegar em José. Em relação a José acontece algo inesperado. Dele se diz que: “Jacó gerou José”, mas não se diz que José gerou Jesus. Diz-se somente que José foi o “esposo de Maria”, e que de Maria “nasceu Jesus, que é chamado Cristo”. Em vez de dizer que José gerou Jesus, o esquema se interrompe abrindo para a surpresa do que aconteceu por meio de Maria e pela ação do Espírito Santo.

Se prestarmos atenção ao primeiro nome da genealogia de Mateus (Abraão) e ao último (Jesus), a mensagem é ainda mais bonita! Do primeiro não se diz quem o gerou; do último não se diz quem o gera nem a quem ele gera. Na verdade, a genealogia nos liga ao mistério inicial do Pai criador, do qual todos temos a vida, e ao mistério final do Filho, do qual todos temos a vida eterna. Esse é também o sentido da genealogia de Lucas que retroage de Jesus até Deus.

As genealogias nos mostram que Jesus assumiu a nossa história humana: história das gerações, mas também da graça de Deus que tudo conduz a Cristo.

Diante do presépio estamos diante desse mistério de Jesus que “assume em Si a humanidade inteira, toda a história da humanidade, e imprime-lhe uma reviravolta nova, decisiva rumo a um novo ser pessoa humana” (Bento XVI).

 

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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