Contemplando o Presépio – São José

Não falta em presépio algum a figura silenciosa de São José. Ele entrou na história da salvação e nos Evangelhos de uma forma também silenciosa: a genealogia. Mateus anota de maneira significativa: “Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo” (1,15-16).

O fato de não ser pai biológico de Jesus não atenuou paternidade de José. Ele exerceu o direito paterno de dar nome a seu filho (1,25); cumpriu as obrigações de pai ao proteger a “mãe e o menino” da perseguição de Herodes (2,13-22); e Jesus recebeu de José tudo o que lhe era de direito, seguindo a tradição judaica.

O Evangelho nos diz de forma clara e concisa que José “era um homem justo” (1,19). Nesse sentido, a contemplação do presépio nos põe diante do drama que José viveu antes de aceitar a missão de ser pai de Jesus.

José, descendente de Davi, recebeu o anúncio do nascimento prometido e profetizado por Isaías: “eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho”. Esse nascimento tão aguardado e esperado não se realizou sem um drama pessoal muito doloroso para José e Maria. José chegou à convicção de que deveria renunciar a Maria. Podemos imaginar o sofrimento de José ao ter que renunciar a Maria, mas ele estava disposto a tal renúncia. De fato, os grandes dons de Deus são, muitas vezes precedidos de grandes tribulações e provas: Deus alarga assim o nosso coração para poder preenchê-lo ainda mais com o seu dom.

José foi preparado para receber a graça de Jesus. Assim o drama pessoal de José o levou a viver uma alegria profunda na castidade perfeita de uma união espiritual profunda com Maria. Sempre pensamos que a castidade de José o distanciou de Maria e de Jesus. Essa compreensão, porém, é preconceituosa e errada. Foi a castidade que permitiu a José viver em uma comunhão de intimidade e de unidade com Maria muito profunda.

Podemos também admirar a força de alma e a obediência de São José. Ele, sendo um homem justo, decidiu renunciar a Maria. Aceitou o sacrifício no silêncio. Isso é sinal de grandeza e força de alma, mas o mais admirável é a sua obediência a vontade de Deus. Com efeito, quando nos dispomos a fazer um grande sacrifício, normalmente nós nos endurecemos, e o nosso coração se fecha. Não queremos ouvir mais nada porque queremos nos manter no sacrifício assumido. S. José, ao contrário, mesmo pronto a um grande sacrifício, se manteve aberto à Palavra de Deus. Por isso, o anjo, ao vir ao encontro de José, encontrou o seu coração aberto para as grandes promessas de Deus.

Por que São José decidiu abandonar Maria? Há várias interpretações para essa decisão.

A primeira é a de que José suspeitou de um possível adultério de Maria. Embora essa interpretação seja possível e tenha sido feita, ela apresenta um sério problema. Se José realmente suspeitava de Maria, ele teria exigido a aplicação da pena para tal delito que era a lapidação. José, porém, resolveu despedir Maria em segredo.

A segunda interpretação é a da perplexidade. Sem suspeitar um possível adultério, José viu na gravidez de Maria um acontecimento inexplicável. Ele precisava decidir entre o ato jurídico público e a forma privada. Tendo escolhido essa segunda modalidade, José iria entregar a Maria uma carta privada de repúdio “para não a difamar” (1,19). Nessa decisão, Mateus vê a reação de “um homem justo”.

De fato, para José o cumprimento da Lei não consiste em mera aplicação fria e externa de prescrições legais. A vontade de Deus, para José e, consequentemente para o filho que ele educará, não é uma lei imposta a partir de fora, mas “alegria” e “boa nova”. José ensinou Jesus a viver a Lei não como legalidade exterior, mas como evangelho, como “via amoris” para o Pai e sua vontade. José ama Maria profunda e intensamente, por isso ele desejava interpretar e aplicar a lei de maneira justa e amorosa. Ele desejava viver conforme a vontade de Deus e, ao mesmo tempo, queria julgar a situação de Maria com a máxima caridade possível.

Uma terceira interpretação é a da reverência. Essa interpretação pressupõe que São José tenha sido informado do milagre divino na gravidez de Maria. Com efeito, nada impede que Maria tenha partilhado com José o anúncio recebido do anjo Gabriel. Dessa forma, a decisão de José de deixar Maria não seria motivada pela suspeita nem pela perplexidade, mas pela reverência: ele reconhece que o que se operou em Maria é fruto da ação divina e, uma vez que não foi chamado para nela colaborar, não se sentiu digno de assumir Maria por esposa nem o menino como seu filho. Com efeito, José só decide aceitar Maria por esposa depois que o anjo lhe encarrega da missão de esposo e de pai.

Essas duas últimas interpretações são possíveis e estão de acordo com os textos bíblicos. O Papa Francisco sintetizou a interpretação da perplexidade e da reverência de forma a mostrar as implicações da decisão de S. José para os homens de hoje.

José acolhe Maria, sem colocar condições prévias. Confia nas palavras do anjo. A nobreza do seu coração fá-lo subordinar à caridade aquilo que aprendera com a lei; e hoje, neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher, José apresenta-se como figura de homem respeitoso, delicado que, mesmo não dispondo de todas as informações, se decide pela honra, dignidade e vida de Maria. E, na sua dúvida sobre o melhor a fazer, Deus ajudou-o a escolher iluminando o seu discernimento” (Patris corde, 4).

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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