Confiar como as crianças!

Desafiado pela “noite escura” causada pela Covid-19 comecei a pensar em cenas bíblicas que pudessem me ajudar a atravessar esta noite. As cenas que passaram pela minha memória não são mágicas que vão resolver a epidemia, mas podem ajudar a enfrentar a escuridão de forma mais serena. Pensando desta forma, tenho a “ousadia” inocente e modesta de partilhá-las.

No contexto de sofrimento imposto aos israelitas pelos madianitas (Jz 6,1-7), o anjo do Senhor apareceu a Gedeão, que “estava malhando o trigo no lagar” (v. 11), e lhe disse: “O Senhor esteja contigo, valente guerreiro!” e Gedeão respondeu: “Se o Senhor está conosco, donde vem tudo quanto nos está acontecendo?” (Jz 6,12-13). Esse valente guerreiro se sentiu abandonado por Deus (v. 13b). O ceticismo de Gedeão é existencial, humano e atual. Como crer em algo que a realidade nega? Gedeão, em seguida, dialogou com Deus (vv. 14-23) e pediu-lhe prova (vv. 36-40). Era noite (vv. 25.40)! Mas Gedeão foi amadurecendo e, de cético, tornou-se enviado e sinal da presença deste mesmo Deus para o seu povo e venceram os madianitas (8,22).

Agar, a egípcia, quando se viu grávida de Abraão (Gn 16) começou a desprezar Sara, sua senhora (vv. 4-5). Sara resolveu revidar e “a maltratou de tal modo que ela fugiu de sua presença” (v. 6b). Agar foi encontrada pelo anjo do Senhor no deserto (v. 7) que a interpelou quanto a suas andanças e ela respondeu: “Fujo da presença de minha senhora Sarai” (v. 8). O anjo lhe disse para voltar e acrescentou: “Estás grávida e darás à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Ismael, pois o Senhor ouviu tua aflição” (v. 11). Ora, em hebraico, Ismael significa “Deus ouve (ou ouvirá)”. É o que o próprio verso explica “pois o Senhor ouviu tua aflição”. Curiosamente, o texto não diz em qualquer momento que Agar tenha se dirigido a Deus e expressado qualquer súplica. Ela estava empreendendo uma fuga, aflita, no deserto e em plena gravidez. É uma mulher, escrava e estrangeira (v. 3). Mas o texto afirma que Deus ouviu sua aflição. E Agar deu a Deus o nome de “Tu és El-Roi”, isto é, “Tu és o Deus que me vê” (v. 13). A cena deixa claro que Deus não só vê o drama humano, mas também acolhe a súplica não verbalizada, não expressa. Essa cena nos remete a uma outra no NT.

Numa cidade chamada Naim, Jesus “ao se aproximar da porta da cidade, coincidiu que levavam a enterrar um morto, filho único de mãe viúva… O Senhor, ao vê-la, suas entranhas se comoveram” (Lc 7,12-13). Ele despertou o jovem e o entregou vivo à mãe (vv. 14-15). Em nenhum momento da cena esta mulher abriu a boca. Ela estava tomada pela dor e por sua esperança morta. Aliás, um elemento característico do gênero de milagre de curas, na qual o caso se enquadra, é a súplica do(s) interessado(s). Elemento esse completamente ausente na cena. Mas o drama da mãe toca Jesus que se adianta e o acolhe como prece não verbalizada, como súplica muda. O clamor mudo e silencioso é visto e ouvido por Jesus.

José do Egito, aos dezessete anos, dedurou os irmãos, teve sonhos, que foram entendidos como expressão do desejo de superioridade sobre eles, e gozava da predileção do pai (Gn 37,2-11). Esses elementos desencadearam o ciúme e o ódio dos irmãos a tal ponto que não podiam mais se falar amigavelmente (v. 4). O ódio se escalou (vv. 4.5b.8b). Os irmãos tomaram uma decisão radical: “matemo-lo, joguemo-lo numa cisterna qualquer” (v.19). Em seguida, “arremessaram-se contra ele e o lançaram na cisterna. Era uma cisterna vazia, onde não havia água” (v. 24). Depois mudaram de ideia e terminaram por vender José aos mercadores (vv. 27-28) e assim ele foi levado ao Egito (v. 38). Mais tarde os irmãos confessaram: “vimos a sua aflição quando ele nos pedia graça, e não o ouvimos” (42,21). O próprio José se refere ao Egito como “terra de sua aflição” (41,52). Deste drama familiar e humano emerge outra vez a pergunta: onde estava Deus? Deus não impediu o conflito, não impediu a cisterna, não impediu a venda, não impediu a ida para o Egito, não impediu a condição de escravo lá, nada fez. É um Deus inerte que nunca chega e, quando chega, vem sempre atrasado. Por outro lado, o texto não registra qualquer expressão religiosa de José. Não há aparição de anjo a José, não há qualquer súplica ou rito da parte dele, a cisterna não é espaço sagrado, não ocorre milagre, nada sensacional. O José da cisterna é um homem em silêncio ou silenciado. O narrador não lhe dá mais a palavra até a prisão no Egito, nem mesmo para se dirigir a Deus. Todavia, o livro da Sabedoria retoma este episódio e afirma que a sabedoria divina, Deus em seu atributo, “não abandonou o justo vendido, mas […] desceu com ele à cisterna” (Sb 10,13-14). Mais tarde, como escravo na casa de Putifar, tudo que ele fazia prosperava “porque Deus estava com ele” (Gn 38,2-3). Esta leitura é reafirmada em At 7,9: “Deus estava com ele”. Portanto, Deus não poupa a aflição a José, mas o assiste nela. A cisterna não é só lugar do sofrimento, mas também da assistência inefável de Deus. A narrativa deixa transparecer o jeito misterioso do agir divino. Quando parece que ele não vem em auxílio, ele já está lá. Não espera a verbalização da súplica. Nossos olhos não estão treinados para perceber isso em nosso dia-a-dia. O autor do livro da Sabedoria percebeu a presença de Deus na cisterna daquele vendido séculos depois.

Esta sapiência tornou-se proverbial no AT: “Beba cada um da água da sua própria cisterna!” (II Rs 18,31; Is 36,16; cf. Pr 5,15). Dito de outro modo: estejamos atentos para perceber Deus no nosso próprio sofrimento, na nossa própria insegurança, na nossa própria noite escura. E, se levantar os olhos para além de si, perceberá sua presença nas cisternas das UTIs, nos agentes de saúde, nos serventes dos serviços essenciais, etc. Tecla bastante batida ultimamente. Ora, olhando mais profundo, o que fez Jesus em sua encarnação senão descer à cisterna humana?

A experiência de Deus fundante e paradigmática de Israel, não foi feita no templo, nem no culto, mas na fuga do Egito, no êxodo. Amós retoma esta experiência com uma pergunta retórica: “Por acaso ofereceste-me sacrifícios e oferendas no deserto durante quarenta anos, ó casa de Israel?” (Am 5,25). Nem por isso, Israel deixou de ser alimentado e assistido por seu Deus.

Elias eliminou os falsos profetas (I Rs 18,40) e isto lhe custou a perseguição de morte por parte da rainha Jezabel (I Rs 19,2). “Vendo isso, Elias levantou-se e partiu para salvar a vida” (v. 3). No deserto ele pediu a morte (v. 4). Apareceu um anjo do Senhor que não assegurou o fim da perseguição, mas o assistiu e avisou que “o caminho te será longo demais” (vv. 5.7). O profeta se dirigiu ao monte Horeb e se escondeu numa gruta onde passou a noite (vv. 8-9). Deus veio ao seu encontro não pelas vias convencionais (o furacão, o terremoto e o fogo), mas numa brisa leve (vv. 11-13), isto é, de um jeito novo. Ocasião que o profeta não perdeu. A narrativa é clara em mostrar que Elias faz a experiência de Deus na fuga, no medo, no deserto, na noite escura e, mais ainda, não no templo ou numa liturgia.

Na cena dos discípulos de Emaús, Jesus ressuscitado fez todo o percurso com eles sem ser reconhecido (Lc 24,1-29). O texto deixa claro que o Cristo ressuscitado não reconhecido não significa Cristo morto, o Cristo não percebido não significa Cristo ausente.

No texto joanino, Madalena foi ao túmulo de madrugada para trabalhar seu luto, movida por uma ausência que doía. Restava-lhe a esperança de, ao menos, estar próxima dos resquícios da presença do mestre, o corpo. Não o encontra e entende que ele fora roubado dali (Jo 20,1-2). O discípulo amado foi à tumba, encontrou-a vazia e o evangelista atesta que “ele viu e creu” (v. 8). Eis o desafio da fé: ver a presença do ressuscitado na aparente ausência, no vazio. Em seguida, Madalena encontrou Jesus ressuscitado e pensou que fosse o jardineiro (v. 15). Outra vez, como em Emaús, não reconhecer Aquele que vive nas madrugadas da vida não significa que ele esteja morto ou ausente.

Voltando ao episódio de José, não é oportuno nos perguntarmos pelo “por quê?” de tudo isso. A busca por uma causa ou razão nos leva para trás e facilmente pode nos empurrar para o moralismo. É momento de olhar para frente e nos perguntar pelo “para quê?”, por uma finalidade. Será que aos olhos de Deus não está um convite paterno para vermos o mundo e as relações de outra forma? José do Egito, conseguiu olhar os fatos com os olhos da fé. Isso lhe permitiu ver a mão de Deus presente nos acontecimentos e transformar a venda num envio, a desgraça em graça (Gn 45,5-8; 50,20) e, a partir disso, conseguiu refazer as relações. Será que Deus, que obviamente não causou esta catástrofe como não causou a cisterna de José, não se serviria dela em sua pedagogia para nos ajudar a crescer e organizar um mundo e as relações de um modo novo?

Por outro lado, o profeta Isaías fala de “um Deus que se esconde” (Is 45,15) e que deve ser procurado (Is 55,6). O tema da busca de Deus aparece em várias ocorrências (p. ex.: Dt 4,29; Jr 29,13-14; II Cr 15,2 etc.). Este tema não apenas aponta para o mistério do Inefável e que quer ser buscado como um pai que se esconde para que o filhinho tenha a alegria do encontro. É também um modo de dizer que Deus não se deixa cristalizar, congelar, fossilizar em conceitos no coração e na mente do crente. Por isso não tolera imagens. Ele é dinâmico e precisamos refazer, atualizar a visão que temos dele. Se a visão de Deus que temos de ouvido, que herdamos do passado (tradição), não nos ajuda a vê-lo no momento presente (experiência), então ela não cumpre seu papel, precisa ser refeita. Não é isso que nos ensina o homem da terra de Hus (Jó 1,1) quando diz: “Conhecia-te só de ouvido, agora viram-te meus olhos” (Jó 42,5)?

A cisterna era ainda a imagem do exílio para onde o povo fora levado: “Para me destruírem, lançaram-me na cisterna” (Lm 3,53). Israel ficou sem templo e sem altar. Como fazer seus sacrifícios? O livro de Daniel é uma obra tardia, mas o autor a situa no período exílico (cf. Dn 1,1-2). No cântico de Azarias, conservado na adição grega, se descreve o drama do povo nestes termos: “Não há mais, nestas circunstâncias, nem chefe, nem profeta, nem príncipe, nem holocausto, nem sacrifício, nem oblação, nem incenso, nem lugar onde oferecermos as primícias diante de ti” (Dn 3,38). Significa que o aparato político-religioso estava desmontado. O exílio foi a grande noite escura de Israel. Porém, uma das noites mais fecundas, que permitiu Israel reencontrar-se consigo mesmo, reencontrar seu Deus e purificar a visão que tinha dele. Zacarias, relendo o fato, escreve: “Ainda quanto a ti, por causa do sangue da tua aliança, libertei os teus cativos da cisterna em que não havia água” (Zc 9,11).

Estas cenas bíblicas elencadas até aqui me permitem duas conclusões imediatas. A primeira é que as nossas formas convencionais de alimentar a nossa fé e fazer a experiência de Deus, nossas práticas religiosas, mas exatamente, nossas liturgias, nosso culto organizado, nossos ritos, nossos espaços sagrados, etc., são essenciais, são de extrema importância, precisamos delas. Porém, não esgotam as formas de manifestação de Deus que sempre surpreende e precede, sobretudo nos momentos de crise. Isto é óbvio. Mas o momento, sem assembleias, sem missas, sem eucaristia, etc., nos força a repetir e lembrar o óbvio. Aliás, temos aí uma ocasião, que não podemos perder, de avaliar nossa visão de Deus e nossas formas de nos relacionar com ele, nossas práticas. Ele está nas Igrejas, mas está também nas cisternas da vida. É ocasião para redescobrir o valor da solidariedade, da cumplicidade com o semelhante, da responsabilidade com a casa comum etc.

A segunda conclusão é que a nossa noite escura não está, de forma alguma, alheia aos olhos e aos ouvidos de Deus. Ele sempre vê e ouve, porém, a seu tempo e a seu modo. Isso nos desafia a não desanimar, sabendo que o caminho é longo. Mas como diz o biblista E. A. Knauf: “Quem deseja a luz tem que caminhar no escuro!” (cf. 1 Könige 15-22, p. 182).

Desde o início deste texto, eu tinha em mente a atitude da criança que reza e lembrei-me da música Maria da minha infância de Pe. Zezinho, que diz:

Eu era pequeno, nem me lembro
Só lembro que à noite, ao pé da cama
Juntava as mãozinhas e rezava apressado
Mas rezava como alguém que ama.

            Jesus, na sua sabedoria, dizia: “aquele que não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele” (Mc 10,15). O mestre as tem por modelo. Elas não estão preocupadas com as formas de expressão da fé, com nossas práticas religiosas. Elas simplesmente rezam de forma singela, com pureza de coração. Mais ainda, o traço comum e elementar que caracteriza toda criança é: elas crescem! E o momento é propício ao crescimento. É preciso agir como adultos, com sensatez, e não eximir-se das responsabilidades, sem perder, porém, a atitude da criança que se sente segura e cheia de confiança agarrada na mão do pai e caminha. Parafraseando o Pe. Zezinho na mesma música: “perdemos o costume da criança inocente”.

            Falando da confiança em Deus, Paulo Coelho reporta-nos a seguinte narrativa rabínica (que faz lembrar um salmo alfabético):

Alguns judeus rezavam na Sinagoga quando a voz de uma criança se fazia ouvir: “A, B, C, D”. Eles procuravam se concentrar na Sagrada Escritura, mas a voz da criança se repetia: “A, B, C, D”. Eles interromperam a liturgia e quando olharam ao redor viram um menino que ainda cantava o seu canto. O Rabino perguntou ao menino: “Por que você faz isso? “Porque eu não sei os versos sagrados”, disse o menino. “Por isso eu espero, que enquanto eu canto o alfabeto, Deus usará as letras para formar as palavras corretas”. “Eu te agradeço por esta lição”, disse o Rabino. “Oxalá eu também seja capaz de confiar a Deus meus dias sobre sua terra exatamente assim como você confiou-lhe tuas letras” (cf. Unterwegs – Der Wanderer, p. 133).

 

Fonte: Faculdade Jesuíta

Autor: Rivaldave Paz Torquato, O. Carm. é professor titular no departamento de Teologia da FAJE.

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