Comunicado Oficial Covid-19

Caros fiéis da Cidade de Votarantim,

Caros fiéis da Arquidiocese de Sorocaba.

Sorocaba, 25 de abril de 2020 Festa de S. Marcos Evangelista

Desde o dia 19 de março, solenidade de S. José, os padres têm celebrado a “missa sem povo” em toda a Arquidiocese de Sorocaba. Tomamos essa difícil decisão – mais difícil ainda porque incluiu também a celebração da Páscoa – movidos pelo senso de responsabilidade no enfrentamento da pandemia de Covid-19. Todos (padres, religiosos e leigos) têm colaborado em primeira linha com as autoridades competentes ao evitar as aglomerações e ao viver este tempo de privação dos sacramentos, principalmente da eucaristia, com grandes sacrifícios pessoais e comunitários. Nesse sentido, agradeço de coração toda a colaboração de nossos fiéis (padres, diáconos, religiosos e leigos): se o número de contaminação tem se mantido baixo é também graças ao engajamento dos católicos na luta contra a pandemia. É preciso destacar que essa colaboração se reverte para o bem comum, pois a contaminação não escolhe religião, idade, condição social. Se os católicos não tivessem colaborado ativamente, a infecção por coronavirus teria sido muito mais disseminada.

Por isso, desejo encorajar todos os fiéis da Arquidiocese de Sorocaba a continuar seguindo o que é nosso princípio norteador desde o início da decretação do estado de calamidade pública, ocorrida no dia 21 de março de 2020: “colaborar ativamente e em primeira linha com as autoridades competentes no combate à transmissão do novo coronavirus” (Carta do dia 19 de março de 2020). “Lutamos contra uma doença que não poupa ninguém e se abate principalmente sobre os mais frágeis e pobres. Por isso, não se contagiar para não contagiar outros é um gesto de caridade cristã e de cuidado pela vida” (Carta de 25 de março de 2020).

Se levarmos em conta que os católicos da Arquidiocese de Sorocaba (composta por 12 cidades) são 587.871 de uma população total de 1.027.777, ou seja 57,20%, cairemos na conta de como é importante a colaboração ativa de nossos fiéis. Esse número não deve ser motivo de vanglória, mas de um senso de responsabilidade ainda maior na busca do bem comum. Por isso, esclareço que, na Arquidiocese de Sorocaba, as missas continuarão a ser celebradas sem povo até que dure o estado de calamidade pública. Nesse sentido, continuam valendo, em seu conjunto e no seu ordenamento cronológico, as determinações já dadas nas cartas de 14, 19 e de 25 de março de 2020.

É preciso também dar alguns esclarecimentos.

A Prefeitura Municipal de Votorantim autorizou, por meio do decreto 5931 de 22 de abril de 2020, “as igrejas, templos religiosos e afins a funcionar”. Mesmo que tenha sido dada essa autorização, as paróquias de Votorantim continuarão a celebrar a missa sem povo. As razões são as seguintes.

1. Dentre as exigências que devem ser cumpridas sob pena, a letra “e” estabelece que “não haja compartilhamento interpessoal de objetos ou alimentos durante os cultos”. Se alguém perguntar a qualquer católico o que é a eucaristia, a resposta espontânea será “é alimento”! Mesmo que o entendimento não seja o de equiparar a eucaristia a alimento qualquer, o presente decreto da maneira como foi escrito impossibilita voltar a celebrar a missa com povo.

2. Outro problema do decreto é a recomendação de que “se restrinjam o número de cultos semanais”. Em vez de diminuir o número das missas, elas deveriam ser aumentadas exatamente para se evitar aglomerações. Nesse sentido vale recordar que o número de católicos em Votorantim é de 57.353 de uma população total de 105.809 (Censo de 2010). Mesmo que nem todos os católicos frequentem as missas, teria sido mais prudente que a prefeitura de Votorantim tivesse consultado esse dado acessível, antes de publicar essa recomendação, a nosso ver, equivocada. 3. Problema mais grave é de que não é possível retornar à missa com povo somente em uma cidade da nossa Arquidiocese. Como poderemos impedir que os fiéis das outras cidades vizinhas e também de outras dioceses se dirijam às paróquias de Votorantim para tomar parte da missa? 4. Por fim, e não menos importante, julgo que, mesmo levando em conta a boa vontade da prefeitura municipal, tenha sido desrespeito o princípio da laicidade do Estado que é um princípio de separação e de colaboração entre a Igreja e o Estado. Da mesma forma como a Igreja não cria leis para a Prefeitura cumprir, também a Prefeitura não deve fazer novas leis litúrgicas para a Igreja Católica nem para outras tradições religiosas. Tenho grande respeito a todos os prefeitos municipais com quem desejo colaborar; o mesmo respeito, porém, me leva a apelar às autoridades competentes que respeitem o princípio da laicidade do Estado.

Por fim, gostaria de reafirmar o que já foi dito anteriormente. “As medidas de contenção sejam assumidas como ato de amor e de cuidado, como forma de um cuidado mais zeloso pela saúde dos outros principalmente das pessoas mais vulneráveis e fragilizadas. As restrições que a pandemia impõe não precisam ser aceitas passivamente. O fato de as famílias terem que evitar aglomerações pode e deve ser aproveitado para redescobrir a graça e a alegria da oração em família. Incentivo as famílias a trocarem os ambientes de diversão ou de compras pelo lar, aproveitando o tempo para rezar mais vezes em família” (Carta de 14 de março de 2020).

Com minhas orações,

Dom Julio Endi Akamine SAC Arcebispo de Sorocaba