Comentário ao Evangelho – Terça-feira 02/11/2021

Terça-feira: Comemoração de todos os fiéis defuntos

 

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A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do Caminho. Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo. Me deem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram. Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador. Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos. Rezem, sorriam, pensem em mim. Rezem por mim. Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo. Sem nenhum traço de sombra ou tristeza. A vida significa tudo o que ela sempre significou, o fio não foi cortado. Porque eu estaria fora de seus pensamentos, agora que estou apenas fora de suas vistas? Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do Caminho… Você que aí ficou, siga em frente, a vida continua, linda e bela como sempre foi.

A morte não é nada? Tenho que discordar dessa afirmação.

Sabemos que nossa vida é mortal e finita, que a morte está inscrita na nossa condição e que deveríamos achar a morte “natural” como comer, beber e nascer. A morte não é nada, como comer, beber e nascer: será isso verdade?

O ser humano come, mas isso não faz do nutrimento algo meramente “natural”. Pelo contrário, o ser humano cercou a alimentação de elaborações, criatividade e ritos que a transformaram em arte, cultura, confraternização. Em torno da mesa, os amigos se tornam ainda mais amigos, os inimigos se reconciliam, os pais se doam aos filhos, e estes os acolhem com gratidão. Comer não é simplesmente um natural “botar algo na barriga”!

Nascer não é somente vir a este mundo. Experimentamos o nascimento como evento que marca a nossa vida. Cada filho que nasce provoca também o nascimento de um pai e de uma mãe. A criança empurra os pais para a maturidade, uma vez que a partir do nascimento eles não se preocupam apenas com a felicidade própria, mas se tornam responsáveis pela vida de um terceiro.

A morte não é nada? Diga isso para uma mãe que perdeu seu filho para a criminalidade, as drogas, a fome, a guerra. A morte não é nada? Diga isso para as pessoas que perderam os pais idosos, familiares e amigos para a pandemia e que não puderam se despedir deles com um funeral.

A morte não é nada? Diga isso para Deus que não poupou o seu próprio Filho a fim de que nós pudéssemos ter vida. Na celebração da paixão, caímos na conta da presença ainda lancinante de todos os sofrimentos da humanidade, das trevas que cobrem o mundo atual, da solidão dos que foram esquecidos e deixados para trás.

A morte não é nada? Diga isso a Jesus que sofreu a agonia do Getsêmani, foi injustamente condenado, foi pregado na cruz como malfeitor e experimentou o abandono do Pai. A Paixão de Cristo ainda não terminou, por isso não tenho como concordar de que “a morte não é nada”!

A fé na ressurreição não é ópio para esquecer a dor do mundo. Ela é a proclamação de que a dor do mundo foi carregada nos ombros do Bom Jesus. Ela não é a negação da morte; é um responder ao mistério da morte com um mistério ainda maior: a vida em Deus. A ressurreição não torna a morte inócua! Ela a supera e a vence. A fé não é a conclusão de um raciocínio que julga que a morte seja natural; ela é uma oferta humilde que espera que aceitemos o dom da vida nova nascida da cruz.

A experiência do sofrimento e da morte não vence a nossa fé na ressurreição. Pelo contrário a promove e a exalta, exatamente porque a morte é a passagem para a vida nova da ressurreição. Por isso, Paulo pôde escrever: “Somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses; perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados” (2Cor 4,8-9).

Nós sabemos que caminhamos para a morte, mas, por causa da fé em Cristo, experimentamos também que caminhamos para Ele. Todo o nosso ser tende para esse encontro como o encontro da felicidade suprema. Da mesma forma como experimentamos a morte, que impõe a sua dor, vamos ao encontro de alguém que não está ausente porque ressuscitou.

Como o medo mais intenso é saber que a morte já está em ato no nosso presente, assim a felicidade mais imediatamente acessível é estar com Cristo. A união com Cristo começa a preencher o nosso coração já nesta vida terrena e traz uma alegria que nem mesmo os sofrimentos mais agudos podem tirar.

Antes de concluir um esclarecimento: o poema “A Morte Não É Nada” foi atribuída erroneamente a Santo Agostinho, mas na verdade o texto é de Henry Scott Holland (27/01/1847 – 17/03/1918). Alguns veem semelhanças desse sermão com Santo Agostinho, Carta 263: a Sapida. Agostinho, porém, nunca experimentou a morte dessa forma: nem a morte do amigo, nem a da sua mãe, tampouco a própria.

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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