Comentário ao Evangelho – Sexta-feira 22/07/2022

6ª feira da 16ª TC

Santa Maria Madalena

Quem é Maria Madalena?

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Para começar, é bom a gente dizer quem não era Maria Madalena, pois há muita confusão em relação a essa mulher. É famosa a identificação (errada) que muitos fazem entre Madalena com Maria de Betânia e com a pecadora de Lc 7,36-50. A partir de Gregório Magno, a Igreja ocidental identificou essas três mulheres. Na realidade as três se distinguem.

Como surgiu essa confusão? A origem disso é provavelmente a identificação de Maria de Betânia (Jo 12,1-8) com a mulher pecadora (Lc 7,36-50): as duas, de fato, ungem Jesus durante uma refeição. Maria Madalena seria então a pecadora de Lc 7, por causa da interpretação errada da possessão de que fala Lc 8,2.

Mas não devemos ignorar a diferença radical do gesto das duas mulheres: o da mulher pecadora é um gesto de gratidão pelo perdão, o de Maria de Betânia é expressão pura de amor; a pecadora cumpre seu gesto na casa do fariseu Simão; Maria realiza seu gesto na sua casa, que é também de Lázaro.

Além disso, não podemos confundir pecado com possessão. Maria Madalena foi curada de uma possessão demoníaca que não pode ser interpretada como desqualificação moral. O próprio S. Lucas que descreve a unção realizada pela pecadora (que não tem nome), fala das mulheres que acompanhavam Jesus e os doze em 8,2. Tais mulheres são bem conhecidas: Maria Madalena, Joana, Suzana. É improvável que tendo nominado Maria Madalena em 8,2, Lucas não o tivesse feito em 7,36.

Se prestarmos atenção aos textos bíblicos veremos também que o caráter das duas mulheres é diferente: Maria de Betânia (Jo 11,20.28) era de índole tranquila, contemplativa, ao passo que Maria Madalena se caracteriza por uma atividade impetuosa (Jo 20,11ss).

Por isso,

  • uma é a pecadora pública que certa vez banhou os pés de Jesus com lágrimas de arrependimento e os ungiu com bálsamo (Lc 7,36ss) em sinal de agradecimento;
  • outra é Maria de Betânia, irmã de Lázaro e de Marta, que derramou perfume sobre a cabeça e os pés de Jesus pouco antes da Paixão, num gesto de fina cortesia e de amor extremado (Jo 12,3);
  • outra, por fim, é Maria de Madalena, da qual Jesus expulsou sete demônios, que o servia com seus bens e que o acompanhava junto com os doze (Lc 8,2).

Quando o Domingo da Páscoa começava a clarear, “Maria conservava-se do lado de fora, perto do sepulcro, e chorava” (Jo 20,11). Era a segunda vez, naquele amanhecer de domingo, que Maria ia até o sepulcro de Jesus, incansável no seu empenho por prestar uma última homenagem a Jesus.

Maria Madalena tinha chegado ao túmulo juntamente com Maria, mãe de Tiago e Salomé. Estas últimas tinham fugido, amedrontadas, ao verem o sepulcro vazio (Mc 16,8). Maria, porém, foi correndo à procura de Pedro e do discípulo amado, para lhes dizer: “Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram” (Jo 20,2).

Houve um espanto geral. Os dois apóstolos saíram em disparada e ela vinha atrás. Quando os dois chegaram ao sepulcro entraram e ficaram perplexos com o que viram e voltaram para o Cenáculo para avisar os outros.

Maria Madalena, porém, não arredou pé de lá. Não queria ir embora. Queria encontrar o Senhor, queria honrá-lo, mesmo que fosse apenas um pobre cadáver. Por isso permaneceu lá, chorando do lado de fora.

As suas lágrimas eram a expressão do seu amor. Gregório Magno tem um comentário muito bonito a este respeito.

E nós vemos a força tão grande do amor que inflamava a alma daquela mulher, que não se afastava do sepulcro do Senhor, mesmo quando os apóstolos dele já voltavam. Buscava a quem não encontrava: chorava procurando-o e, consumindo-se no fogo do seu amor, ardia no desejo de encontrar aquele que imaginava roubado. E assim aconteceu que só ela o viu, a única que ficou procurando… Começou a buscar, e não o encontrou; perseverou no seu querer, e achou-o; de tal forma cresceram os seus desejos, e tanto se dilataram, que acabaram alcançando o que buscava” (Homilias sobre os Evangelhos, XXV).

Enquanto estava assim, desolada, o Evangelho nos descreve o reencontro com Jesus. “Chorando, inclinou-se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco… Eles lhe perguntaram: “Mulher, por que choras?” Ela respondeu: “Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (Jo 20,13). Madalena é a mulher que busca. Ela encarna as palavras do profeta Isaias: “A minha alma desejou-Te, meu Deus, durante a noite e, dentro de mim, o meu espírito Te procurava” (Is 26,9).

O Evangelho continua: “Ditas estas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: “Mulher, por que choras? Quem procuras?” (20,15).

É comovente ver Jesus ressuscitado indo em pessoa ao encontro daquela pobre criatura. É bonito ver que, depois da ressurreição, Jesus se mostra mais humano ainda, se fosse possível ser mais humano, quando vai ao encontro dos seus discípulos. Ressuscitado Jesus se torna mais próximo, afetuoso e acessível.

Madalena, “supondo que fosse o jardineiro, respondeu: “Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o irei buscar”. É frequente nas aparições que Jesus assuma uma figura desconhecida. Pertence a uma condição corpórea nova, a partir da qual pode se esconder e se manifestar.

Para reconhecer Jesus, é preciso que Ele se revele: “Disse-lhe Jesus: “Maria!”. “Voltando-se ela, exclamou em hebraico: “Rabbuni!”, que quer dizer: “Mestre”. Jesus fala com o timbre de voz costumeiro e a chama pelo nome. Maria o reconhece (as ovelhas reconhecem a voz do pastor). É o Jesus de antes e, ao mesmo tempo, é novo e não precisa dos aromas.

Nesse momento Jesus a olha com ternura e lhe dá uma missão: “Não me retenhas. Vai aos meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. A mensagem pascal é mensagem de fraternidade e de filiação divina. Maria é a primeira evangelista da ressurreição!

Ao chegarmos nesse ponto, é bom refletir e nos perguntar: Será que, pensando nos vazios que com frequência eu sinto, a lição da Madalena não me diz nada?

Todo vazio do coração, toda amargura, é uma ausência: a ausência de Deus. Pode ser a terrível ausência provocada pelo pecado, pelos sete demônios, mas pode ser também a ausência de uma boa alma que perde Deus de vista, fica morna na fé. Nesse momento, nós não enxergamos mais Deus, mas isso não significa que não esteja presente. Na verdade, é nessa hora que Jesus mais nos ajuda: somos nós que, como Madalena, não o reconhecemos. Como Madalena pensamos que Jesus tenha roubado Jesus. Não é isso que acontece conosco?

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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