Comentário ao Evangelho – Sexta-feira 02/04/2021

Sexta-feira Santa

Jo 118,1-19,42

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Nós podemos olhar para o evento da cruz e da morte de Jesus a partir de dois ângulos diversos: pelas suas causas ou pelos seus efeitos. Se nos detemos nas causas históricas da morte de Cristo, nós nos perturbamos e cada um será tentado em dizer como Pilatos: “Eu não sou responsável pelo sangue deste homem” (Mt 27,24).

A cruz é melhor compreendida e aceita pelos seus efeitos do que pelas suas causas. E quais foram os efeitos da morte de Cristo? Fomos justificados pela fé nele, reconciliados e em paz com Deus, replenos de esperança de uma vida eterna (cf. Rom 5,1-5).

Um outro efeito da cruz de Cristo é que ela mudou o sentido da dor e do sofrimento humano (físico e moral). A cruz não é mais um castigo ou uma maldição. Foi redimida, quando o Filho de Deus a tomou sobre si. Qual é a prova mais segura de que a bebida que alguém lhe oferece não está envenenada? É se ele beber na sua frente do mesmo copo. Assim Deus fez: na cruz Ele bebeu, na frente de todos, o cálice da dor até o último gole. Mostrou assim que ele não está envenenado, mas que há salvação no seu fundo.

E não só a dor de quem tem fé, mas toda dor humana. Ele morreu por todos. “Quando for elevado da terra – dissera –, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). Todos, não somente alguns! “Sofrer – escrevia São João Paulo II do seu leito no hospital após o atentado – significa tornar-se particularmente receptivo, particularmente aberto à ação das forças salvíficas de Deus, oferecidas em Cristo à de “sacramento universal de salvação” para o gênero humano.

Qual é a luz que tudo isso lança sobre a situação dramática que a humanidade está vivendo? Também aqui, mais do que para as causas, devemos olhar para os efeitos. A pandemia de coronavírus nos despertou bruscamente do delírio de onipotência. Temos a ocasião – escreveu um conhecido Rabino judeu – de celebrar este ano um especial êxodo pascal, o “do exílio da consciência. Bastou o menor e mais informe elemento da natureza, um vírus, para nos recordar que somos mortais, que o poderio militar e a tecnologia não bastam para nos salvar. “Não dura muito o homem rico e poderoso: – diz um salmo da Bíblia – é semelhante ao gado gordo que se abate” (Sl 49,21). E é verdade!

Enquanto pintava os afrescos da catedral de São Paulo em Londres, o pintor James Thornhill, a um certo ponto, foi tomado por tanto entusiasmo por um afresco seu que, afastando-se para vê-lo melhor, não percebia que quase despencava no vão do andaime. Um assistente, horrorizado, entendeu que um grito de chamada teria apenas acelerado o desastre. Sem pensar duas vezes, molhou um pincel na tinta e o arremessou contra o afresco. O mestre, pasmo, deu um passo adiante. A sua obra estava comprometida, mas ele estava salvo.

Assim Deus, às vezes, faz conosco: confunde os nossos projetos e a nossa tranquilidade, para nos salvar do abismo que não vemos. Mas cuidado para não nos enganarmos! Não foi Deus que arremessou o pincel contra o afresco de nossa orgulhosa civilização tecnológica. Deus é nosso aliado, não do vírus! “Eu tenho um desígnio de paz, não de sofrimento”, ele mesmo nos diz na Bíblia (Jr 29,11). Se esses flagelos fossem castigos de Deus, não teria sentido eles caírem igualmente sobre os bons e os maus, principalmente sobre os pobres que são geralmente os mais prejudicados. Seriam eles mais pecadores que outros?

Não! Aquele que chorou um dia pela morte de Lázaro chora hoje pelo flagelo que caiu sobre a humanidade. Sim, Deus sofre, como todo pai e toda mãe. Quando descobrirmos um dia isso, teremos vergonha de todas as acusações que fizemos contra Ele. Deus participa da nossa dor para superá-la. “Deus – escreve Santo Agostinho –, por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar do mal o bem”.

Será que Deus Pai quis a morte do seu Filho, a fim de daí tirar o bem? Não! Simplesmente permitiu que a liberdade humana fizesse o seu percurso, contudo, fazendo-a servir ao seu plano, não ao dos homens. Isto vale também para os males naturais, como terremotos e pestilência. Deus não os provoca. Ele deu à natureza uma espécie de liberdade, claro, qualitativamente diversa daquela moral do homem, mas ainda assim, sempre uma forma de liberdade: liberdade de evoluir segundo suas leis de desenvolvimento. Não criou o mundo como um relógio pré-programado em cada mínimo movimento. É o que alguns chamam de acaso, e que a Bíblia chama, ao contrário, de “sabedoria de Deus”.

O outro fruto positivo da presente pandemia é o sentimento de solidariedade. Quando foi, desde que há memória, que os homens de todas as nações se sentiram tão unidos, tão iguais como neste momento de dor? O vírus não conhece fronteiras. Em um segundo, abateu todas as barreiras e as distinções: de raça, de religião, de poder. Como tem nos exortado o Santo Padre, não devemos desperdiçar esta ocasião. Não deixemos que tanta dor, tantas mortes, tanto esforço heroico por parte dos profissionais de saúde tenha sido em vão. É esta a “recessão” que mais devemos temer.

Transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate (Is 2,4).

É o momento de tornar real algo desta profecia de Isaías, da qual a humanidade desde sempre aguarda o cumprimento. Demos um basta à trágica corrida às armas. Destinemos os intermináveis recursos empregados às armas a outras finalidades melhores e urgentes: a saúde, o saneamento, a alimentação, o cuidado da criação. Deixemos à próxima geração, um mundo mais pobre de coisas e de dinheiro, porém, mais rico de humanidade.

A Palavra de Deus nos diz qual é a primeira coisa que devemos fazer em momentos como estes: gritar a Deus. É ele mesmo quem põe nos lábios as palavras para se gritar a Ele: “Levantai-vos, vinde logo em nosso auxílio, libertai-nos pela vossa compaixão! […] Despertai! Não nos deixeis eternamente!” (Sl 44,24.27). “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?” (Mc 4,38).

Será que Deus ama ser implorado para conceder os seus benefícios? Será que a nossa oração pode fazer Deus mudar seus planos? Não, mas há coisas que Deus decidiu conceder-nos como fruto de nossa oração, quase como para compartilhar com as suas criaturas o mérito do benefício recebido. É ele quem nos impulsiona a fazê-lo: “Pedi e vos será dado, disse Jesus, batei e a porta vos será aberta” (Mt 7,7).

Quando, no deserto, os hebreus eram mordidos por serpentes venenosas, Deus ordenou a Moisés para levantar sobre uma haste uma serpente de bronze, e quem a olhava não morria. Jesus se apropriou deste símbolo. “Como Moisés levantou a serpente no deserto – disse a Nicodemos –, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (Jo 3,14- 15). Também nós, neste momento, somos mordidos por uma invisível “serpente” venenosa. Olhemos para aquele que foi “levantado” por nós sobre a cruz. Olhemos para Ele para que nós e todas as pessoas sejamos salvos. Quem olhar para ele com fé e amor não morrerá. E se morrer, será para entrar na vida eterna.

“Depois de três dias eu ressuscitarei”, Jesus predisse (cf. Mt 9:31). Nós também, depois dessa pandemia, ressuscitemos e sairemos dos nossos túmulos, não para voltar à vida anterior como Lázaro, mas para uma nova vida, como Jesus. Uma vida mais fraterna, mais humana, mais cristã!

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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