Comentário ao Evangelho – Sábado 21/11/2020

Apresentação de Nossa Senhora

Mt 12, 46-50

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O conteúdo desta memória litúrgica está ligado ao relato lendário do apócrifo do Evangelho de Tiago (c. 7). Segundo essa lenda, a Virgem Maria, na idade de três anos, foi levada ao templo para ser educada. A Virgem Maria foi apresentada ao templo, teria permanecido aí entre as virgens do templo (também lendárias) e se dedicado ao serviço do Santuário.

Mesmo que a origem seja lendária, a memória litúrgica atrai nossa atenção para algo verdadeiro na vida de Maria e, por isso, para a nossa vida de fé: a vida de Maria foi toda ela oferta a Deus.

São Paulo nos exorta: “Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rm 12,1-2).

Se houve alguém que ofereceu a si mesmo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, esta foi Maria. A oferta de Maria no momento da anunciação (eis aqui a serva do Senhor) e na hora da cruz não foi improvisada. A Igreja compreendeu que a oferta de si mesma foi preparada desde muito antes e foi progressivamente realizada.

Procuremos compreender bem as condições da oferta que Maria faz de si mesma partindo do cântico do Magnificat. Partir do Magnificat não é um anacronismo porque esse cântico exprime os sentimentos que foram se formando no coração de Maria bem antes do dia da anunciação.

A oferta de Maria é uma resposta ao dom de Deus e reconhecimento desse dom. De fato, o cântico reconhece que antes de oferecer algo a Deus é preciso reconhecer que dEle tudo recebemos: “A minha alma glorifica o Senhor, e o meu exulta em Deus, meu Salvador… Olhou para a humildade de sua serva… O Poderoso fez em mim grandes coisas…”.

Maria descobre maravilhada e reconhece agradecida o amor de Deus por ela e por isso ela pensa em se oferecer a Deus. A oferta de si é sempre ato segundo. O primeiro ato é do dom de Deus. A esse dom Maria responde oferecendo-se a si mesma.

Assim é também a nossa consagração: ela consiste em oferecer a Deus o que nós recebemos dele. Oferecemos a Deus os dons que recebemos gratuitamente, que nos foram dados sem nosso merecimento e que demonstram o amor que Deus tem por nós.

A oferta de Maria se baseia nesse reconhecimento do primado da graça de Deus e, ao mesmo tempo, torna concreto esse reconhecimento. A gratidão de Maria não é um sentimento passageiro, mas é um empenho concreto vital.

Toda oferta, por outro lado, tem também o aspecto da súplica e do pedido. Oferecer a Deus, consagrar-se a Ele é sempre uma súplica que pede a transformação dos dons que levamos a Ele para santificá-los. Somente Ele pode santificar, somente Ele pode consagrar algo. Nós só podemos “apresentar” os dons.

O que Maria apresenta para ser consagrado é a si mesma.

É o mesmo que diz São Paulo: ele nos exorta a apresentar nossos corpos como oferta. Mas a consagração é ação de Deus. Apresentando nossa vida a Deus como oferta, pedimos e suplicamos a Ele que torne santo e perfeito o que nós lhe apresentamos.

Pedimos a Deus que transforme nossa pobreza e nossa humildade para que sejam dignas dele.

Cristo crucificado nos ensina que podemos apresentar a Deus tudo, para que tudo seja transformado: as nossas dores e sofrimentos, nossos fardos e dificuldades, inclusive nossas limitações e defeitos.

Para que nossa oferta de súplica seja ouvida é preciso que seja acompanhada de uma real disponibilidade à ação de Deus. Deus nos ouve somente se estamos dispostos a deixá-lo agir em nossa vida e se estamos dispostos a agir com Ele. Por isso quando pedimos algo a Deus, é necessário estar à sua disposição: “transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito”.

Peçamos a Maria que nos ajude a “oferecer nossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus”.

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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