Comentário ao Evangelho – Domingo 24/05/2020

Domingo da Ascensão do Senhor

Mt 28, 16-20

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Os textos da liturgia da Ascensão estão carregados de uma forte tensão espiritual. De fato, o evento da subida aos céus provoca reações de saudades, de tristeza e de temor nos discípulos. Os amigos de Jesus experimentam a ascensão como um distanciamento, quase como se estivessem sendo abandonados. Ainda era forte neles a impressão das aparições do Ressuscitado, ainda desejavam eles sentir de maneira quase física a proximidade do Mestre. A subida de Jesus ao céu parece interromper essa experiência de proximidade e de presença. Por isso eles se sentiam um pouco decepcionados: depois de tanta alegria provocada pela ressurreição e pelas aparições, vivem a ascensão como uma nova separação.

Por que os discípulos têm tanta dificuldade com a ascensão de Jesus? A dificuldade deles consiste na resistência deles em aceitar que as relações com Jesus sejam transformadas. É a dificuldade de permitir que o vínculo com Jesus amadureça de uma maneira totalmente nova em relação à condição terrena anterior. É como se os discípulos quisessem ainda uma relação com o Jesus da tumba. “Ascender ao céu” significa de fato desaparecer da vista, mas não é desaparecer dos olhos da fé. Não é o mesmo que se ausentar do coração que ama e deseja na esperança.

O evangelista Lucas faz uma afirmação importante para viver a ascensão dessa forma. “Então os olhos deles se abriram e o reconheceram. Ele, porém, desapareceu da vista deles” (Lc 24,31). Esse momento em que Jesus desaparece da vista dos discípulos de Emaús é já “ascensão do Senhor”. Jesus desaparece da vista dos discípulos porque agora, com os olhos do coração e da fé abertos, a visão física de Jesus não é mais necessária. Ele desparece da vista deles porque a relação com o Ressuscitado foi transformada totalmente. A partir da ressurreição, a relação com Jesus é uma relação espiritual (participa da liberdade, da profundidade, da plenitude do Espirito).

A ascensão inaugura assim o novo tempo da presença glorificada de Jesus entre os discípulos e na Igreja. Inaugura o novo “tempo dos sinais”, isto é, o tempo em que a presença de Jesus ressuscitado se dá de modo real nos mistérios da salvação. No que consiste esta presença de Jesus nos mistérios? É a presença real de Jesus nos sinais que Ele próprio deixou: a Igreja, os sacerdotes, os sacramentos, o amor fraterno, a Palavra, o pobre. Todas estas são formas de presença real de Cristo. Neste novo tempo (tempo que começa com a ascensão e se concluirá com a segunda vinda de Cristo na sua glória), serão os sinais que trarão a presença do glorificado entre nós. Ou melhor: o Ressuscitado permanecerá mais presente do que nunca através dos sinais visíveis que ele mesmo deixou para nós até a sua segunda vinda.

A ascensão inaugura também o tempo da missão da Igreja. Jesus mandou batizar. Ele nos deixou o sacramento essencial para a salvação, o sacramento para ser recebido na Igreja e para se vincular definitivamente a Jesus.

O mandato de Jesus é universal. É universal como a salvação que Ele trouxe. A missão se estende a todas as nações não por motivos proselitistas, mas porque se a salvação não for universal não é salvação que mereça tal nome.

A salvação que Deus deseja para todos consiste na ascensão de todos para além da condição terrena na qual todos nascemos. Deus deseja que participemos da sua natureza divina. Deseja que sejamos deus com Ele e em comunhão com Ele. Mesmo tendo origem da terra e permanecendo terrestres, o desígnio de Deus consiste em que todos sejam mais do que pó e barro da terra: Ele quer que estejamos sempre com Ele. Por isso nos enviou o Filho e também pelo mesmo motivo glorificou a humanidade assumida pelo Filho na encarnação. A missão da Igreja consiste em levar a todos essa Boa Notícia. Mais do que isso: na força do Espírito, a Igreja leva a todos o poder de se tornar filho de Deus. Não é um poder próprio. Esse poder foi confiado por Jesus ao mandar batizar todos os povos.

Evangelizar é, portanto, anunciar e transmitir a todos este poder de subir ao céu, onde está Jesus sentado à direita do Pai. A orientação definitiva e última da nossa vida é Jesus Glorificado. Sabemos que viemos do pó da terra, mas a ascensão nos põe diante deste mistério da glorificação da humanidade de Jesus que é antecipação e sinal da nossa.

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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