Comentário ao Evangelho – Domingo 17/05/2020

6º Domingo da Páscoa – ANO A

Jo 14, 15-21

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A partir deste domingo a nossa atenção se desloca de Cristo ao Espírito Santo, a nossa atenção passa do Ressuscitado para o Dom do Ressuscitado. Começamos uma espécie de tempo do Advento em preparação para Pentecostes. Como a vinda de Cristo foi preparada pelo anúncio dos profetas e foi apontada por João Batista, assim Jesus prepara a vinda do Espírito Santo nos prometendo: “eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade”.

Quem é o Espírito Santo? Como aprendemos na catequese: é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Sim, o Espírito Santo não é simplesmente uma energia impessoal de Deus. Não é somente o seu sopro criador como se pensava no Antigo Testamento. Nessa mesma linha, o Espírito não é somente o hálito divino inspirado no ser humano. Por ser pessoa, o Espírito não é somente a “matéria da qual Deus é feito” como afirmavam os filósofos gregos.

Cristo nunca falou o Espírito como algo, mas sempre como Alguém. Ele é enviado pelo Pai; Ele mora em nós. Paulo fala que Ele foi derramado em nossos corações e que Ele reza em nós com gemidos inefáveis. Os teólogos afirmam que o Espírito é Amor Pessoal, muito diferente do amor como paixão transitória da alma. O Espírito não é algo passageiro no coração humano, Ele é pessoa tão forte e real quanto a Pessoa do Pai e do Filho. Ele, não algo. Alguém, não alguma coisa!

É preciso que fique claro em nossa vida de fé e em nossa relação com o Espírito: estamos diante dEle, estamos diante de Alguém, estamos diante de uma Pessoa. Não se trata de simples força, energia divina. Com pessoa a nossa relação com Ele, é relação pessoal.

Nesse sentido, podemos, além de perguntar quem é o Espírito Santo, perguntar sobre como o Espírito age em relação a nós e como é a nossa relação com Ele.

Muitas vezes se fala do ES como daquele que dá luz, sabedoria, conselho, inteligência e ciência. “Ele é aquele que dá força: Sereis revestidos da força do alto” (Lc 24,49). Temos necessidade dessa força do alto para fazer frente a este mundo e à missão! Ao mesmo tempo, reconhecemos que, além da luz e da força do alto para agir e lutar, precisamos da consolação para viver. De fato, muitas vezes sofremos a solidão e a ameaça do universo, experimentamos o cansaço e o desânimo que as dificuldades nos impõem, nos entristecemos com os amigos que nos traem e ficamos com medo dos perigos desta vida. Quem é o consolador que pode nos infundir confiança e esperança? Em Is 51,12 encontramos a resposta: “Sou eu, sou eu quem vos consola!”

A consolação de Deus é Deus mesmo!

Podemos dizer que o primeiro Consolador é Jesus, Verbo de Deus encarnado! Ele passou a vida terrena consolando toda sorte de sofrimento e pregando a consolação: “Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra” (Mt 5,5). “Vinde a mim, todos vós que estais aflitos sob o peso dos vossos fardos, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

Antes de partir deste mundo para o Pai, Jesus pediu ao Pai para que nos enviasse outro Consolador, para que permanecesse sempre conosco. Prestem atenção! Jesus pede outro Consolador. É outro distinto dele e do Pai. É também, Consolador como o é o Pai que envia o Consolador Filho. Este é o Espírito Santo Deus, Pessoa Consolação, distinto do Pai e do Filho e, ao mesmo tempo, Consolador como o Pai e o Filho!

O Espírito não nos consola a partir de fora. Ele é o “doce hóspede da alma”: consola a partir de dentro, pois habita em nosso coração e nos faz habitar em Deus.

Como é nossa relação com o Espírito Santo? Ele é chamado de Paráclito, ou seja, o Defensor. Ele vem em nossa defesa e nos consola. Ao mesmo tempo, como todo defensor, o Espírito Santo deve ser invocado em nossa defesa. O Defensor deve ser buscado. Infelizmente nós não recorremos suficientemente a esta fonte de consolação. Preferimos recorrer a outras consolações. Trocamos a fonte viva pelas cisternas rachadas das riquezas egoístas, das compras inúteis, dos prazeres fúteis e destrutivos, das distrações que consomem a alma. Há também os que buscam o consolo nas drogas lícitas e ilícitas, na alimentação compulsiva, nos vícios escravizadores. Vivemos mendigando conforto passageiro e superficial em vez de ir à verdadeira fonte de consolação.

Além de não trocar o Consolador por consolações passageiras é preciso que sejamos humildes. “Deus consola os humildes” (2Cor 7,6). Os soberbos são impermeáveis à ternura do Consolador porque são autossuficientes.

Por fim, ao receber a consolação do Espírito devemos ter consciência de que o dom recebido deve ser partilhado com os outros. A graça de Deus nunca é privilégio exclusivista, mas um privilégio que traz a tira colo a responsabilidade pelos outros. São Paulo explica isso com clareza: “Deus nos conforta em todas as nossas tribulações, para que, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus, possamos consolar os que estão em qualquer angústia” (2Cor 1,4). Quem foi realmente consolado pelo Paráclito se torna paráclito para os outros, ou seja, se torna pessoa que sabe aliviar a aflição, confortar a tristeza, ajudar a superar o medo e dissipar a solidão.

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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