Comentário ao Evangelho – Domingo 14/03/2021

4º. Domingo da Quaresma B

Jo 3, 14-21

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Estamos no domingo da alegria, e a liturgia nos coloca pura e simplesmente diante da razão da nossa alegria: Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna.

Deus nos ama! Esse é o dogma central da nossa fé; é a alma de toda a Bíblia; é a afirmação mais importante de toda a Sagrada Escritura! A frase tem um sujeito, um objeto e um verbo que contém o mistério mais vasto e profundo que podemos conhecer e receber: Deus e nós! E entre Deus e nós há o amor!

Não é um amor genérico. É um amor que entregou até as últimas consequências o Filho unigênito ao mundo, ou seja, a nós! É preciso recordar a leitura do domingo passado de Gn 22,1-16, o sacrifício de Isaac. Como Jesus fala desse amor que se entrega?

Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do homem seja levantado

É preciso reler Nm 21,4-9. O povo passa por dificuldades no deserto: a fome, a sede, os agressores… Ao mesmo tempo recebe de Deus proteção contra os inimigos, a água que brota da rocha e o maná que desce do céu. A cada adversidade enfrentada no deserto, Deus manifesta com sinais maravilhosos o seu amor pelo seu povo.

Muitos, porém, ainda acham que Deus não faz mais do que sua obrigação e murmuram contra Deus, dizendo que não há água e que estão enojados daquele alimento sem graça. Por isso, os culpados são atacados por serpentes de fogo e muitos morrem por isso. Ante o castigo, os pecadores se arrependem e recorrem à intercessão de Moisés. Deus manda que ele faça uma serpente de bronze e a eleve em uma haste. E todos os que eram picados pelas serpentes e olhavam para a imagem elevada no deserto ficavam curados.

Surpreende esse episódio. Deus manda fazer uma imagem de bronze! E essa imagem é de uma serpente! Sabemos que a serpente era uma divindade cultuada como símbolo da fertilidade das religiões pagãs. Além disso, para piorar, ela é também símbolo do tentador; símbolo do mal!

Jesus explica a sua morte e ressurreição como um ser elevado! Assim como a serpente de bronze foi elevada, Ele também será elevado! Olhando para Jesus somos salvos. Olhando para o amor feito carne, olhando para Jesus que se entrega na cruz para ressuscitar, temos a salvação dos pecados. Portanto, Jesus explica que com a sua morte e sua ressurreição ele cumpre o que foi prefigurado por Moisés no deserto. O que salvou o povo no deserto não foi a serpente. Tampouco foi o mal. Mas Jesus! Já no deserto Jesus salvou os pecadores. Olhando para a serpente, eles estavam olhando, mesmo sem o saber, para Jesus. Eles não estavam olhando para um ídolo nem para o símbolo do mal, mas para Jesus.

E por que, Deus mandou que a imagem fosse a de uma serpente? De novo, a palavra de Jesus nos explica o porquê disso. Jesus é a verdadeira serpente elevada no deserto! Ele é prefigurado na imagem da serpente por que, na cruz, ele foi feito pecado pela nossa salvação.

Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2Cor 5,21). Deus o fez pecado por nós: o perdão do meu pecado não é uma ação burocrática de Deus! Para que eu pudesse ser salvo, Deus fez recair sobre o seu Filho dileto todo o peso do pecado e ele foi esmagado. Jesus foi feito pecado no sentido de que ele assumiu voluntariamente sobre si o castigo que nós merecíamos pelos nossos pecados. Para que nós pudéssemos ser feitos justiça de Deus, Jesus foi feito pecado! Normalmente a serpente serve de símbolo do mal, representando o próprio Satanás. Na cruz Jesus, embora não pudesse ser acusado de pecado algum, é feito pecado por nós. A serpente é levantada no deserto. Jesus é levantado na cruz. Quem ver o sinal recebe a vida. É o caso do bom ladrão.

Jesus é a serpente levantada no deserto, no sentido de que para que eu pudesse ser perdoado, Ele foi feito pecado por mim. Ele não foi feito pecado em si mesmo. Ele foi feito pecado por nós, para que nós fôssemos nele feitos justiça de Deus. Qual é a sua reação diante de tão grande amor?

O mundo de hoje faz com que seja difícil acreditar no amor. São tão numerosas as traições, são infinitas as decepções, são terríveis as violências provocadas e sofridas! Quando sofremos a violência e a traição, somos feridos e começamos ter medo de amar e de ser amados, porque não queremos mais ser enganados e feridos. Muitos são também os que acusam a religião e a fé de estar na origem da guerra, da discriminação, da opressão da liberdade individual. Desse modo vai engrossando sempre mais o número daquelas pessoas que não acreditam mais em Deus, porque não acreditam mais no amor de Deus. Não acreditam que o amor dos cristãos seja verdadeiro, de que amor de Deus seja realidade!

Dessa forma, entramos em uma nova era do gelo: sem acreditar que Deus nos ama, o mundo está destinado a se dissolver na escuridão e no frio cósmico. Se não há amor, estamos só nadando para o gelo escuro do fim cósmico. Neste tempo da quaresma somos colocados diante da serpente elevada no deserto! De Jesus elevado na cruz, entre o céu e a terra, com os braços abertos. Estamos diante do amor que se derrama do seu lado perfurado. Esse é o momento decisivo:

Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito!

A Campanha da Fraternidade, nos aponta para a mesma decisão! Quem crê nele não é condenado! Cristo é nossa paz. Do que era dividido, Ele fez a unidade! Sem fraternidade, o mundo se perverterá em uma arena de luta e de violência, sem compaixão e sem misericórdia. Lugar da violência onde os fracos, os doentes, os idosos, os não nascidos não tem lugar. Nietzsche soube como ninguém exprimir o surgimento de uma nova era do gelo:

A compaixão contraria inteiramente a lei da evolução, que é a lei da seleção natural. A compaixão preserva tudo o que está maduro para perecer; luta em prol dos desterrados e condenados da vida… O homem perde poder quando se compadece… Nada é mais insalubre, em toda nossa insalubre modernidade, que a compaixão cristã.

Para enfrentar esse veneno, só há um antídoto: Deus nos ama e nós cremos no amor.

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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