Comentário ao Evangelho do Dia – 29 de setembro

(29/09 Miguel, Gabriel e Rafael, Arcanjos – festa)

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

Faz parte da nossa fé crer na existência dos anjos. A Bíblia dá testemunho sóbrio dessas criaturas celestes que se colocam como mensageiros entre Deus e os homens, sobretudo nos Evangelhos no qual os anjos são descritos com um papel bem definido. A Escritura e a Tradição nos falam somente o que precisamos saber sobre eles.

Os anjos são criaturas espirituais que dependem de Deus. Elas subsistem na plena identidade de sua condição puramente espiritual. Nesse sentido, eles não têm corpo e, por isso, não estão ligados às funções do corpo: eles não conhecem através dos sentidos do corpo (como acontece conosco), não tem instintos, não são masculinos nem femininos. A individualidade deles não procede da corporeidade.

A perfeição dos anjos depende da proximidade ao Criador. Quanto mais próximos de Deus, tanto mais perfeitos. Não se trata, porém, de uma perfeição que coincida com a perfeição divina, uma vez que são criaturas e receberam a existência de Deus. O ser deles é recebido e, por isso, eles não são eternos.

Os anjos são pessoas, mas diferente das pessoas humanas, não são pessoas compostas de alma e corpo.

Sabemos que o homem ocupa um lugar privilegiado na criação: graças ao corpo, ele pertence ao mundo visível, e, por causa de sua alma espiritual, que vivifica o corpo, ele se encontra quase no limiar entre o mundo visível e o invisível. A este último, o Credo que a Igreja professa à luz da revelação, pertencem os outros seres puramente espirituais. Eles constituem um mundo específico.

É preciso reconhecer que há grande confusão quanto aos anjos: há o risco de considerar como fé da Igreja o que na verdade não o é, ou então de menosprezar algum aspecto importante da verdade revelada. A existência dos seres espirituais, que a Sagrada Escritura chama de “anjos”, era negada nos tempos de Cristo pelos saduceus (cf. At 23,8). Negaram-na também os materialistas e racionalistas de todos os tempos. Mas “para nos livrar da fé na existência dos anjos, seria necessário corrigir radicalmente a própria Sagrada Escritura e, com ela, toda a história da salvação” (A. Winklhofer, Die Welt der Engel, Ettal 1961, p. 144, nota 2; in Mysterium Salutis, II, 2, p.726). Toda a Tradição é unânime nessa questão. O Credo da Igreja é no final das contas um eco do que Paulo escreve aos Colossenses: “nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades; tudo foi criado por ele e para ele” (Cl 1,16). Em outras palavras, Cristo, o Filho-Verbo eterno e consubstancial ao Pai, “gerado antes de toda a criatura” (Cl 1,15) está no centro do universo como razão e eixo ao redor do qual gira toda a criação.

Os anjos não são, portanto, criaturas de primeiro plano na realidade da revelação e, mesmo assim, pertencem plenamente a ela, tanto que, em alguns momentos, os vemos cumprir tarefas fundamentais em nome do próprio Deus.

A Providência abraça também o mundo dos espíritos puros que, mais ainda do que os homens, são seres racionais e livres. Na Sagrada Escritura encontramos preciosas indicações a esse respeito. Também nela encontramos a revelação do drama misterioso e real que se refere a essas criaturas angélicas, sem que nada fuja à eterna Sabedoria, que com força (fortiter) e com bondosa suavidade (suaviter) tudo leva ao seu cumprimento no Reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Reconhecemos sobretudo que a Providência, como amorosa Sabedoria de Deus, se manifestou na criação dos seres puramente espirituais para que melhor se manifestasse a semelhança de Deus neles, os quais superam em muito tudo o que foi criado no mundo visível, inclusive o homem que também é incancelável imagem de Deus. Deus que é Espírito absolutamente perfeito se manifesta sobretudo nos seres espirituais que, pela sua natureza espiritual, estão muito mais próximos dEle do que as criaturas materiais. Eles constituem quase o “ambiente” mais vizinho do Criador. A Sagrada Escritura oferece um testemunho bastante explícito dessa proximidade dos anjos a Deus. A Bíblia fala deles com linguagem figurada: eles são como o “trono” de Deus, as suas “fileiras”, o seu “céu”. O testemunho das Escrituras inspirou a poesia e a arte dos séculos cristãos que nos apresentam os anjos como a “corte de Deus”.

Os anjos de Deus estão a serviço do Filho do Homem, ou seja, de Jesus de Nazaré. A nossa adoração não está dirigida aos Anjos, mas a Deus e ao Filho de Deus. Os Anjos são servidores de Deus que, na sua bondade infinita, foram colocados ao nosso serviço. Assim os anjos nos ajudam a ter um senso mais profundo da santidade e da majestade de Deus e, ao mesmo tempo, um senso de grande confiança, porque tais seres terríveis e excelsos são nossos servidores e amigos.