Comentário ao Evangelho do Dia – 08 de setembro

8 de setembro (Sábado – Natividade de Nossa Senhora – Festa)

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

Acabamos de ouvir a genealogia de Jesus segundo Mateus. Causa-nos um pouco de aborrecimento ouvir essa longa série de nomes dos antepassados de Jesus. Por que ler essa genealogia que parece não ter importância nem conteúdo teológico para o nosso nutrimento espiritual?

Será que é assim mesmo? A genealogia não tem importância nem conteúdo espiritual?

Pense um pouco na sua própria história. De quem você veio? A resposta é evidente: de um pai e uma mãe: são duas pessoas. Os seus pais vieram dos seus avós: são mais quatro pessoas. Continuemos fazendo as contas.

Bisavós: 8

Trisavós: 16

Tetravós: 32

Pentavós: 64

Hexavós: 128

Heptavós: 256

Octavós: 512

Eneavós: 1.024

Decavós: 2.048

Até aqui são 11 gerações, com 4.094 ancestrais…Isto tudo em, aproximadamente, 300 anos antes de nascermos! Pare por um instante e pense! Quem foram eles? Quantas lutas eles tiveram que travar? Por quanta fome passaram? Quantas guerras viveram? A quantas vicissitudes os nossos antepassados sobreviveram? Quanto amor, força, alegria e coragem eles nos legaram? Quanto da força deles está dentro de você hoje? Tudo o que eles viveram e sofreram de alguma forma está inscrito na sua carne hoje. Para que você estivesse vivo, foi necessário que eles passassem por tudo isso.

Se você pegar cada nome da genealogia e pesquisar na Bíblia a história pessoal dele, você cairá na conta de que a “carne” de Jesus carrega todo esse peso da história da salvação, feita de fé, amor, heroísmo e também de muito pecado. A genealogia de Jesus nos faz tomar consciência do que significa a confissão de fé: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

A genealogia de Jesus é para nós uma síntese maravilhosa de toda a milenar história da salvação. Uma história feita de tanto pecado e maldade, mas que foi conduzida por Deus até chegar a Maria e a Jesus. Deus preparou todas as gerações em vista do nascimento de Jesus. Para que recebêssemos Jesus Cristo foram necessárias essa sucessão de gerações e, principalmente, a ação de Deus.

Nesse sentido chamo a atenção para um detalhe que não é de pouca importância. Na genealogia a cada um dos ancestrais de Jesus se aplica duas vezes o verbo “gerar”: uma vez como “filho”, e outra como “pai”. Tomemos como exemplo Isaac: Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó. Esse esquema se repete até chegar em José. Em relação a José acontece algo inesperado. Dele se diz que: “Jacó gerou José”, mas não se diz que José gerou Jesus. Diz-se somente que José foi o “esposo de Maria”, e que de Maria “nasceu Jesus, que é chamado Cristo”. Em vez de dizer que José gerou Jesus, o esquema se interrompe abrindo para a surpresa do que aconteceu por meio de Maria e pela ação do Espírito Santo.

Se prestarmos atenção ao primeiro nome da genealogia (Abraão) e ao último (Jesus), a mensagem é ainda mais bonita! Do primeiro não se diz quem o gerou; do último não se diz quem o gera nem a quem ele gera. Na verdade, a genealogia nos liga ao mistério inicial do Pai criador, do qual todos temos a vida, e ao mistério final do Filho, do qual todos temos a vida eterna.

A genealogia nos mostra que Jesus assumiu a nossa história humana: história das gerações, mas também da graça de Deus que tudo conduz a Cristo.