Celulares ao Alto!

David Steindl contou, em seu livro “Além das Palavras”, que uma das gerações mais talentosas dos “Meninos Cantores de Viena” resolveu dissolver o grupo com uma última apresentação. Os meninos estavam mudando de voz e não manteriam mais o mesmo timbre na adolescência. Para a despedida, escolheram a ária mais difícil e mais bela do repertório. Tudo foi preparado para que fosse uma apresentação memorável. Para que se fizesse dela um registro impecável, providenciaram a melhor aparelhagem de gravação, os técnicos mais competentes e um local com excelente ambiente acústico. No dia marcado, até as condições climáticas contribuíam favoravelmente para a gravação.

Quando, porém, o grupo começou a cantar, a equipe de gravação desistiu de registrar a apresentação e preferiu desfrutar daquele momento único. Tinha se tornado evidente que, por melhores que fossem os recursos e as condições, não havia como reproduzir a experiência do evento. A equipe de gravação não tinha como captar a preciosidade originalíssima da apresentação musical; só quem estava presente podia testemunhar algo que, em si mesmo, não podia ser reproduzido artificialmente. Havia até uma certa vergonha por pensar que se poderia transformar a experiência do momento em um produto de consumo. Pareceu desrespeito e empobrecimento condenável querer se apropriar daquela apresentação. Os presentes experimentaram o temor de violar a beleza indefesa daquela ária se apoderando dela com meios virtuais extrínsecos. O único modo de respeitá-la era acolhê-la com atenção e alegria, recebê-la com admiração, fazer silêncio e desfrutá-la até sua última nota.

Esse relato pode ajudar a entender por que não tem sentido participar da missa pela TV ou redes sociais através de gravação. Temos que distinguir entre o evento e o seu registro. Do evento nós podemos participar pessoalmente, ainda que seja transmitido pelos meios de comunicação. A gravação não nos põe diante do evento, somente de seu registro.

Essa analogia indica também com que reverência devemos tomar parte da missa. Em uma de suas catequeses, o Papa Francisco se queixou de que na missa nós rezamos “corações ao alto” e não “celulares ao alto”. É um comportamento preocupante quando celebramos os sagrados mistérios tirando fotos e fazendo vídeos.

O relato é também uma advertência. Às vezes a facilidade de registrar um acontecimento pode fazer com que se perca a oportunidade da experiência pessoal. Os acontecimentos são únicos, e os registros analógicos ou virtuais não podem reproduzi-los. Servem como recordação, mas não os atualizam.

Há, porém, eventos do passado que se tornam presentes. Isso não por força de nossas recordações ou registros, mas porque são fatos realizados por Deus. Eles têm uma natureza diferente dos acontecimentos históricos, pois não permanecem sepultados no passado distante nem são invalidados pelo tempo. Permanecendo históricos, superam a história e são sempre atuais. A linguagem cristã designa esses eventos realizados por Deus com uma palavra conhecida em sua forma mas não em seu conteúdo: “mistérios”.

Os mistérios cristãos são a presença do eterno na nossa história, a “presencialização” do inefável no aqui e no agora da vida, a efusão do infinito de Deus na finitude caduca de nossa condição terrena. Toda vez que os cristãos celebram os “sagrados mistérios” se tornam expectadores e testemunhas da beleza sempre nova da morte e ressurreição de Jesus. Os ritos se repetem, as palavras são sempre as mesmas, mas, como uma sinfonia tantas vezes executada nunca é uma experiência insípida, com muito mais razão ainda os “sagrados mistérios” nos põe diante da Realidade de Deus.

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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