Beato, padre Donizetti é o segundo a chegar à glória dos altares que morou em Sorocaba

Declarado Beato pela Igreja durante cerimônia eucarística realizada na manhã ensolarada do último sábado, dia 23, na cidade de Tambaú, na Região Metropolitana de Ribeirão Preto, depois de ter reconhecidos seus exemplos de vida e virtudes cristãs junto à Santa Sé pelo papa Francisco, o padre Donizetti Tavares de Lima passa a ser também o segundo agraciado com coroa de santidade e conduzido publicamente à glória dos altares que igualmente residiu em Sorocaba. O primeiro foi Santo Frei Antônio de Sant’Ana Galvão, franciscano beatificado por São Papa João Paulo II em 1998 e canonizado em 2007, durante sua visita ao Brasil, pelo papa emérito Bento XVI, que aqui residiu no início do século XIX, dirigindo a fundação do Convento Santa Clara, das Monjas Concepcionistas de vida monástica enclausurada, em 1811, inclusive ajudando como pedreiro na construção do antigo Convento, na esquina das ruas de São Bento e Padre Luiz, e que existiu até o início dos anos 1960.

“Um verdadeiro pastor ‘com cheiro das ovelhas’, como gosta de dizer o Santo Padre (papa Francisco)”. Foi com estas palavras que o cardeal Angelo Becciu, prefeito da Sagrada Congregação Pontifícia para as Causas dos Santos, como legado papal vindo de Roma, apresentou o novo Beato na homilia para a cerimônia em Tambaú, cidade dentro da Diocese de São João da Boa Vista, onde padre Donizetti foi pároco de 1926 até sua morte, ocorrida no ano de 1961. Natural de Cássia, interior de Minas Gerais, onde nascera a 3 de janeiro de 1882, fora ordenado sacerdote a 12 de julho de 1908. Foi na década de 1950, porém, que romeiros de todos os cantos do Brasil e até de outros países passaram a visitar Tambaú para receber a bênção milagrosa do agora novo Beato da Igreja. Inclusive, essas intensas romarias resultaram em problemas de convivência, higiene, alimentação, pouso, atendimento médico e trânsito em Tambaú. O padre, ainda em vida, não podia passar pela multidão, porque queriam arrancar ao menos um pedaço da sua batina em busca do aguardado milagre.

 

EM SOROCABA

O padre Donizetti Tavares de Lima (agora Beato da Igreja), destaca sua biografia oficial divulgada no sábado por ocasião da beatificação em Tambaú, dos 15 aos 18 anos de idade (1897-1900) morou e estudou em Sorocaba, no chamado Colégio Diocesano, “voltando no ano de1900 para o Seminário em São Paulo”.

Os fatos históricos, então. Adolescente e vocacionado, aos 15 anos de idade Donizetti, que desde os 4 anos de idade já morava com a família no interior de São Paulo, na cidade de Franca, é matriculado no curso preparatório do antigo Seminário Episcopal de São Paulo, frequentando por três anos, entre 1897 e 1900, o atual Ensino Médio no Colégio Diocesano de Sorocaba, mantido por aqui pela então Diocese de São Paulo – que nesta época (final do século XIX) ainda abrangia todo o Estado -. Esse Colégio Episcopal surgira na cidade em 1896, fundado e dirigido por monsenhor João Soares do Amaral, então vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Ponte, de Sorocaba, funcionava na atual rua Souza Pereira, em imóveis que mais tarde, início do século XX, seriam adquiridos pelas Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing, que para ali transferiram o tradicional Colégio Santa Escolástica, que quando de sua chegada à cidade, em 1905, instalaram provisoriamente em uma casa da praça Frei Baraúna, cedida pelos monges do Mosteiro de São Bento.

A propósito do Colégio Diocesano, frequentado em Sorocaba pelo agora Beato Padre Donizetti Tavares de Lima, a crônica histórica local destaca: “Monsenhor João Soares, que viera de Santa Cruz do Rio Pardo com a missão de também fundar, em Sorocaba, o Ginásio Diocesano, em dois sobrados comprados pela então Diocese de São Paulo junto à igreja do Rosário, na atual rua Souza Pereira, foi um marco na caminhada da Igreja em Sorocaba, apesar de só ter funcionado como tal de 6 de abril de 1896 a 6 de março de 1897, quando um grande incêndio o destruiu por completo, obrigando à noite monsenhor João Soares a lançar pelas janelas os colchões ‘e pelas portas do fundo os alunos…’”. “Significativo ainda é que nas férias do verão 1896/1897 o Ginásio Diocesano de Sorocaba serviria para proporcionar lazer e veraneio aos seminaristas menores e maiores de São Paulo, entre os quais estavam futuras ilustres personalidades eclesiásticas brasileiras, como o Cardeal Leme, o bispo dom Barreto, padre Regattieri e ninguém menos que o jovem José Carlos de Aguirre, que retornaria à cidade a 31 de dezembro de 1924, para tomar posse como primeiro bispo diocesano de Sorocaba”. E também muito provavelmente também o agora Beato Padre Donizetti aparecia nesse grupo – já que por aqui ficou até 1900 para concluir o Colégio

“Ninguém é santo sozinho. Onde há um santo, com certeza, ali há uma comunidade que vive a santidade”, afirma o coordenador arquidiocesano de Pastoral e da Comissão Pró-Centenário da Arquidiocese de Sorocaba (1924), padre Júlio César Fernandes, também titular da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade, da vizinha cidade de Piedade, a propósito da cidade – e, por conseguinte, a própria Arquidiocese de Sorocaba – também estar ligada à vocação sacerdotal do agora Beato Padre Donizetti. “Isso significa que também nós por aqui em Sorocaba, em nossa Arquidiocese, somos convidados a viver o caminho da santidade, do acolhimento, do serviço e amor aos irmãos. Aprendamos com o ‘apóstolo da acolhida’, o Beato Padre Donizetti, e sejamos uma Igreja, um povo, que caminha e deseja a santidade”, ressalta padre Júlio.

O menino Bruno Henrique Arruda de Oliveira, de 13 anos, que teve o pé torto congênito curado pela intercessão do padre Donizetti, também participou da cerimônia de sábado em Tambaú. O reconhecimento do milagre foi a principal exigência para o decreto de beatificação do religioso.

 

Texto: José Benedito de Almeida Gomes

Fotos: Memória histórica