As Desgraças Alheias

Certa ocasião, algumas pessoas relataram a Jesus o último acontecimento político ocorrido na capital do país: o massacre de alguns peregrinos que ousaram protestar contra o poder constituído de Roma (Lc 13,1-5).

A situação da época era de grande tensão política, por isso bastava pouco para que ocorressem protestos e distúrbios. Pilatos, que governava o território com mão de ferro, matando de maneira sistemática possíveis rebeldes, não pensou duas vezes em afogar no sangue também de aqueles peregrinos galileus, “misturando o sangue deles com o sangue dos sacrifícios que ofereciam”.

Jesus não condenou aqueles galileus por serem revoltosos e causadores de tumulto político, mas também não os considerou heróis religiosos que podiam salvar a humanidade com o seu gesto de protesto e com a sua morte.

Ao contrário, Jesus reagiu advertindo: não se deve pensar que a morte daqueles galileus tenha acontecido como castigo pelos pecados cometidos por eles. O mesmo vale para as dezoito vítimas fatais da queda da torre de Siloé: as vítimas fatais daquele acidente imprevisto não eram mais pecadoras do que os outros habitantes de Jerusalém.

O que está em jogo nessa forma de julgar as desgraças alheias – as vítimas mereciam tal castigo – é a imagem que fazemos de Deus. Pensando assim, convertemos Deus em um juiz que sanciona imediatamente as ações das pessoas, premiando exteriormente as boas e castigando as más. O juízo de Deus, porém, não se realiza sob forma de sanção mecânica intramundana.

Deus não deve ser usado para justificar automaticamente todas as desgraças (e todas a “graças”) que acontecem na nossa vida. Essa fórmula simplista de julgar os acontecimentos (Deus premia o justo e castiga o pecador) já fora radicalmente negada pelo livro de Jó. No fim das contas, Jesus critica duramente uma fé imanente voltada unicamente para as necessidades imediatas dentro do horizonte mundano desta vida terrena na qual Deus é meramente um componente a mais.

Ao contrário, aqueles galileus foram esmagados violentamente por uma desgraça deste mundo, a desgraça de uma situação política que pairava ameaçadora sobre o povo, tal como uma torre mal construída ameaça cair sobre as pessoas que estiverem debaixo dela. A desgraça de uma política violenta, feita de repressão e morte, a desgraça de uma civilização que pode esmagar aqueles que vivem nela são sinal da precariedade de nossa vida neste mundo.

Por outro lado, esses dois acontecimentos, um de natureza política e outro de natureza fortuita, servem para mostrar que nossa vida está fundada sobre um risco que é o juízo de Deus. O juízo de Deus está próximo, por isso é urgente a conversão. Não ajuda nada ficar pensando que as desgraças deste mundo atinjam somente os pecadores e os culpados e que, por isso, a conversão seja somente para os outros. Sem conversão, nós acabaremos como aqueles galileus, que sofreram uma morte violenta. Sem conversão, nós acabaremos como aquelas dezoito vítimas fatais da queda da torre de Siloé.

Por outro lado, se nós nos convertermos, a morte, inesperada ou não, será convertida em caminho e passagem dolorosa para a vida com Deus. Com a conversão, a nossa morte será como a de Jesus: passagem necessária e dolorosa para a Vida. Essa é a mensagem de Jesus para a multidão assustada e amedrontada pelos perigos da violência política e pelos imprevistos de tantas torres que balançam sobre suas cabeças.

Ante a insegurança e precariedade desta vida, Jesus ensina que devemos nos converter a Deus, nossa única segurança e nossa firme esperança. É ainda tempo de conversão: “Não demores em voltar a Ele nem te delongues de um dia para o outro” (Eclo 5,5-7).

A conversão é urgente para nós, porque Deus nos dá ainda uma última chance. Como aconteceu com a figueira estéril que só servia para esgotar a terra e que, por isso, estava prestes a ser cortada, assim nos foi dada ainda uma oportunidade (Lc 13,6-9). Nosso divino e misericordioso vinhateiro intercede por nós: “Senhor, deixa a figueira ainda este ano”. Jesus nos alcançou uma moratória. E não só isso. Além de pedir mais tempo, ele trabalha interiormente para que possamos dar os frutos desejados: “Vou cavar em volta e colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto”. Ele age com sua graça para que possamos nos converter. Não podemos, porém, desperdiçar culpavelmente essa última chance nem esgotar o tempo da paciência de Deus.

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

Veja mais em: Biografia / Agenda do Arcebispo / Palavra do Pastor / Youtube / Redes Sociais

Compartilhe:
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp

Siga nossas Redes Sociais:

CONTATO

Av. Dr. Eugênio Salerno, 100
Vila Santa Terezinha, Sorocaba – SP
CEP: 18035-430
Telefone: (15) 3221-6880