Aborto ou nascimento

Por Dom Julio Endi Akamine, SAC

A entrada de Jesus na nossa história não é triunfal nem apoteótica: Deus vem ao nosso encontro despojado, pobre e frágil. Nasce na cidade de Belém, está enrolado em trapos e reclinado num cocho de animais. Em sua companhia estão Maria e José, os pastores, que por lá vigiavam os rebanhos e foram orientados pela mensagem dos anjos.

O que nos diz a forma concreta em que se deu o nascimento de Jesus? Neste nascimento tão pobre, Deus nos deixou um recado claro sobre si mesmo: revelou de maneira jamais imaginada uma face que até então não tínhamos visto.

Que rosto tem o Deus dos cristãos? Não é o rosto de um poderoso ou de um sábio, mas de um recém-nascido. E como todo recém-nascido, Deus aparece frágil, indefeso e dependente: Ele precisa ser recebido, amamentado, acariciado, acalentado, caso contrário, não poderá sobreviver. Esta semente de vida não terá futuro se não for protegida e acolhida pelos outros.

Este é o mistério que Deus revela no Natal: o mistério de sua fragilidade. Deus é este recém-nascido que pode ser rejeitado; Ele pode sofrer o ódio e ser esquecido. Tudo isto podemos fazer com o menino Deus, e Ele não sobreviverá.

Nosso sentimentalismo pode transformar o Natal num canto meloso e insosso; nossa dissipação pode nos levar a festejar o Natal sabendo que ele não nos compromete. E depois de apagadas as velas da ceia, poderemos de novo nos dedicar às “coisas sérias”: dinheiro, guerra, violência, poder. Passado o Natal, tiramos a pele de cordeiro para ser o que somos de fato: lobos vorazes que não se importam com os outros, que procuram a própria satisfação e realização. O Natal passa por nós sem que sejamos modificados por ele da mesma forma como um recém-nascido pode se apresentar a nós e ser rejeitado.

Assim é o Natal. É semelhante a todo nascimento. Todo nascimento é frágil e pode ser impedido. Está totalmente submetido à nossa vontade.

Mas ele pode também ser e acolhido como o fizeram Maria e José, os pastores, os reis magos e tantas outras pessoas de boa vontade. Aborto ou aceitação deste nascimento: essa é a escolha que nos é hoje colocada. Podemos compreender assim que esta radical fraqueza de Deus nada mais é do que o radical poder do amor: o amor pode ser recusado como a vida de um embrião, pode ser aniquilado antes de seu nascimento. Mas se o aceitarmos ele nos carrega…

Quando nasce uma criança e ela é acolhida, os pais sabem que suas vidas serão transformadas. O amor dos pais transborda e frutifica num terceiro que os muda. Aquele ser frágil, inerme e tão dependente, tem o poder de mudar a vida das pessoas.

Quanta transformação provoca o nascimento de Jesus! Porque Ele assumiu nossa humanidade, somos feitos participantes da natureza divina. O mistério natalino da fragilidade de Deus esconde a força poderosíssima do seu amor que a todos ilumina e salva.

É próprio de quem ama colocar-se numa posição de fragilidade e de fraqueza. Se quisermos “vencer na vida” — no sentido mundano do termo — nunca devemos amar. No entanto, o menino Deus de Belém não se cansa de dizer com sua ternura que quem assim pensa ganhar a vida na realidade a perde, e quem, ao contrário, a arrisca na aventura do amor, este a ganha.

Feliz Natal!

 

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