A Igreja Católica e Lutero

Em 2017 católicos e luteranos comemoraram juntos o quinto centenário da Reforma. A participação da Igreja Católica não deixou de suscitar perplexidade em alguns e muitas críticas. Mesmo que em contexto muito diferente, algumas dessas críticas retornaram recentemente com a Campanha da Fraternidade Ecumênica.

Para entender a comemoração ecumênica da Reforma Luterana é necessário revisitar o evento de 2017 à luz da história. Nas primeiras comemorações, luteranos e reformados demonstraram muita solidariedade em polemizar asperamente contra a Igreja Católica Romana. Eles festejaram Lutero como o libertador do jugo da Igreja de Roma. Evidentemente essa exaltação de Lutero teve como contrapartida as acusações contra os luteranos por terem provocado uma intolerável divisão da verdadeira Igreja. Como se pode notar, a reafirmação das posições luteranas e católicas, separadas e contrapostas entre si, somente exacerbaram o conflito entre as confissões, provocando hostilidades abertas. Indo por esse caminho de condenações recíprocas, o tempo e as manipulações políticas se encarregariam de fazer explodir guerra de religião.

O Concílio Vaticano II marcou definitivamente uma mudança na busca da unidade. Através da oração, do diálogo e de outras iniciativas, católicos e luteranos empreenderam então uma caminhada com muitos bons frutos. Em 1999, foi publicada a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. Em 1983, o Papa João Paulo II escreveu ao Cardeal Willebrands apresentando uma nova avaliação da catolicidade de Lutero, reconhecendo que a intenção dele era reformar, não dividir a Igreja (“Letter to Cardinal Willebrands for the Fifth Centenary of the Birth of Martin Luther,” in Information Service, n. 52 [1983/II], 83-84). Em 2011, o Papa Bento XVI visitou o Convento Agostiniano de Erfurt, onde Lutero viveu como frade. Ele reconheceu a maneira pela qual a pessoa e a teologia de Martinho Lutero puseram um desafio à teologia católica atual: “O que constantemente inquietava Lutero era a pergunta por Deus, era sua paixão profunda e força condutora de toda sua vida. ‘Como posso encontrar o Deus gracioso?’ Essa questão lhe apertava o coração e se constituiu no fundamento de todas as suas buscas teológicas e suas lutas interiores. Para ele a teologia não era meramente uma busca acadêmica”.

Tanto católicos quanto luteranos reconhecem a situação objetiva de viverem em comunidades separadas, ainda que pertencendo ao mesmo corpo. Essa é uma possibilidade impossível que é fonte de grande sofrimento, uma vez que o desenvolvimento histórico em comunidades separadas não pode ser aceito com resignação. Por isso, católicos e luteranos reconhecem o que têm em comum e o que os divide. O que os une é motivo de gratidão e de alegria; o que os divide é causa de sofrimento e tristeza. Por isso a comemoração conjunta do quinto centenário da reforma luterana não festejou a divisão da Igreja.

Nesse sentido, a comemoração de 2017 foi ocasião para os luteranos revisarem a teologia e a pessoa de Lutero. Eles revisaram as posições viciadas e degradantes que Lutero expressou a respeito dos judeus. Os luteranos se declararam envergonhados e deploraram essas posições. Com um profundo sentido de arrependimento, reconheceram a perseguição aos anabatistas por parte das autoridades luteranas, bem como o fato de Martinho Lutero e Philip Melanchton terem apoiado teologicamente a perseguição. Deploraram os violentos ataques de Lutero aos camponeses, na Guerra dos Camponeses. A consciência dos lados obscuros de Lutero e da Reforma permitiu uma atitude autocrítica dos teólogos luteranos em relação a Lutero e à reforma de Wittenberg. Mesmo concordando parcialmente com a crítica de Lutero ao papado, os luteranos rejeitaram explicitamente a identificação, por parte de Lutero, do papa com o Anticristo.

Em relação a Igreja Católica, os luteranos ainda declararam: “nós cristãos luteranos e nossas congregações, estamos preparados para reconhecer que o juízo dos reformadores sobre a Igreja Católica Romana e sua teologia não esteve inteiramente livre de distorções polêmicas, que em parte foram perpetuadas até os dias atuais. Sentimos muito pelas ofensas e mal-entendidos que esses conteúdos polêmicos causaram aos nossos irmãos católicos romanos. Lembramos com gratidão o pronunciamento de Paulo VI ao Concílio Vaticano II, no qual expressava seu pedido de perdão por toda ofensa causada pela Igreja Católica Romana. Já que na Oração do Pai-Nosso, que o Senhor nos ensinou, nós junto com todos os cristãos pedimos perdão. Busquemos, então, uma linguagem clara, honesta e caridosa em todas as nossas conversações”.

Na vida familiar, o rompimento de relações entre irmãos é o resultado de uma história de desentendimentos, pecados e mal-entendidos. Para que haja reconciliação, é preciso que o passado seja integrado no perdão dado e recebido. Por isso, a memória histórica joga um papel decisivo numa reconciliação: a história não pode ser mudada, nem esquecida, tampouco falsificada, mas dela podemos ficar recordando e intensificando o ponto de vista de cada um, ou buscar revisar, com esperança e na verdade, a própria história, em abertura ao outro, para trilhar um caminho de reconciliação.

Em relação aos cristãos de outras comunidades eclesiais, podemos repetir as polêmicas que herdamos ou buscar o diálogo para chegar à verdade e à reconciliação. A Campanha da Fraternidade Ecumênica se entende e se justifica como um passo concreto no caminho de conversão ao Evangelho, para buscar a unidade que Cristo quis para a sua Igreja.

 

Livro para baixar em PDF: Do Conflito à Comunhão

 

Nota: Recomendo a leitura do documento “Do conflito à Comunhão” ele foi uma das bases para a escrita deste artigo.

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

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